{"id":64,"date":"2018-08-17T05:31:57","date_gmt":"2018-08-17T08:31:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentado\/2018\/08\/17\/joao-e-maria\/"},"modified":"2018-08-17T05:31:57","modified_gmt":"2018-08-17T08:31:57","slug":"joao-e-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/joao-e-maria\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o e Maria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Agora eu era o her\u00f3i<\/strong><\/p>\n<p>E o meu cavalo s\u00f3 <em>falava<\/em> ingl\u00eas<\/p>\n<p>A noiva do cowboy<\/p>\n<p><em>Era<\/em> voc\u00ea al\u00e9m das outras tr\u00eas<\/p>\n<p>Eu <em>enfrentava<\/em> os batalh\u00f5es<\/p>\n<p>Os alem\u00e3es e seus canh\u00f5es<\/p>\n<p><em>Guardava<\/em> o meu bodoque<\/p>\n<p>E <em>ensaiava<\/em> o rock para as matin\u00eas<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Agora eu era o rei<\/strong><\/p>\n<p><em>Era<\/em> o bedel e era tamb\u00e9m juiz<\/p>\n<p>E pela minha lei<\/p>\n<p>A gente <em>era<\/em> obrigado a ser feliz<\/p>\n<p>E voc\u00ea <em>era<\/em> a princesa que eu fiz coroar<\/p>\n<p>E <em>era<\/em> t\u00e3o linda de se admirar<\/p>\n<p>Que <em>andava<\/em> nua pelo meu pa\u00eds<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o <em>fuja<\/em> n\u00e3o<\/p>\n<p><em>Finja<\/em> que <strong>agora eu era<\/strong> o seu brinquedo<\/p>\n<p><strong>Eu era<\/strong> o seu pi\u00e3o<\/p>\n<p>O seu bicho preferido<\/p>\n<p><em>Vem<\/em>, me <em>d\u00ea<\/em> a m\u00e3o<\/p>\n<p>A gente <strong>agora<\/strong> j\u00e1 n\u00e3o tinha medo<\/p>\n<p>No tempo da maldade <em>acho<\/em> que a gente nem <strong>tinha nascido<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Agora era fatal<\/strong><\/p>\n<p>Que o faz-de-conta terminasse assim<\/p>\n<p>Pra l\u00e1 deste quintal<\/p>\n<p>Era uma noite que n\u00e3o tem mais fim<\/p>\n<p>Pois voc\u00ea sumiu no mundo sem me avisar<\/p>\n<p>E <strong>agora eu era<\/strong> um louco a perguntar<\/p>\n<p>O que \u00e9 que a vida <em>vai fazer<\/em> de mim?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Composi\u00e7\u00e3o: Chico Buarque \/ Sivuca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um texto bem elaborado permite ao leitor refazer o caminho seguido por seu criador e n\u00e3o s\u00f3 apreender a mensagem que ele transmite como ainda encontrar os recursos utilizados nessa elabora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o esses recursos respons\u00e1veis por dar sequ\u00eancia ao pensamento inicial e tamb\u00e9m pela unidade indispens\u00e1vel ao texto (em outras palavras, s\u00e3o eles que garantem a coes\u00e3o e a coer\u00eancia exigidas de um bom texto).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos, pois, ver como se fez JO\u00c3O E MARIA:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O primeiro aspecto a merecer destaque \u00e9 o emprego de \u201c<em>agora eu era<\/em>\u201d, t\u00edpica express\u00e3o usada pelas crian\u00e7as ao iniciarem qualquer brincadeira. \u00c9 o resgate do <em>faz de conta<\/em> que vai nos remeter ao mundo infantil. Se nos detivermos na retomada dessa express\u00e3o em outros momentos do poema\/can\u00e7\u00e3o, notaremos que ela d\u00e1 sempre in\u00edcio a um novo momento da inf\u00e2ncia ali apontada. \u00c9 como se o crescimento de um menino se fizesse diante de nossos olhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Primeira parte<\/strong> \u2013 Os verbos empregados na apresenta\u00e7\u00e3o dos fatos\/acontecimentos est\u00e3o todos no pret\u00e9rito imperfeito do indicativo: al\u00e9m do <em>era<\/em>, que aparece repetido, encontramos <em>falava<\/em>, <em>enfrentava<\/em>, <em>guardava<\/em>, <em>ensaiava. <\/em>Ao contr\u00e1rio do pret\u00e9rito perfeito, que se refere a um fato acabado, encerrado, sem continuidade, o pret\u00e9rito imperfeito remete a um acontecimento que se desenrola no passado. O imperfeito traz uma mensagem de continuidade no passado, de alguma coisa que ent\u00e3o era habitual. H\u00e1, pois, um tempo\/espa\u00e7o em que uma vida se desenrolava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Observando-se o aspecto sem\u00e2ntico, nota-se o enfoque de comportamentos caracter\u00edsticos da inf\u00e2ncia, a come\u00e7ar pela escolha de v\u00e1rias crian\u00e7as para viver um mesmo papel nas representa\u00e7\u00f5es infantis, coisa que n\u00e3o seria aceita por crian\u00e7as mais velhas (<em>A noiva do cowboy era voc\u00ea al\u00e9m das outras tr\u00eas<\/em>). Nota-se, tamb\u00e9m, ap\u00f3s o bom humor do cavalo a falar ingl\u00eas \u2013 alus\u00e3o aos bang-bangs apreciados pelos meninos \u2013, uma grada\u00e7\u00e3o nos interesses apresentados e enfocados na sucess\u00e3o dos verbos<em> falava<\/em>, <em>enfrentava<\/em>, <em>guardava<\/em>, <em>ensaiava<\/em> \u2013 da ingenuidade presente nos primeiros enfoques (<em>enfrentar os batalh\u00f5es<\/em> revela a crian\u00e7a que admira o hero\u00edsmo das batalhas) a novos interesses que desabrochavam (<em>ensaiar um rock<\/em> j\u00e1 demonstra um novo interesse). Fica, pois, evidente para o leitor atento que a escolha do vocabul\u00e1rio para apresentar as situa\u00e7\u00f5es cria um todo que abriga as imagens e a mensagem que o autor deseja transmitir em seu texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Segunda parte \u2013 <\/strong>O menino est\u00e1 agora entrando na adolesc\u00eancia. Como nos damos conta disso? Pela mesma raz\u00e3o de o termos reconhecido crian\u00e7a na primeira parte: o emprego de <em>agora eu era <\/em>que nos remete a um passado que se desenrola, o uso de verbos na forma de pret\u00e9rito imperfeito (<em>era, andava<\/em>) desvelando os novos interesses do garoto em crescimento (<em>andava nua pelo meu pa\u00eds<\/em>). Aqui tamb\u00e9m s\u00e3o os aspectos escolhidos pelo autor (sint\u00e1ticos, morfol\u00f3gicos, sem\u00e2nticos) que tecem os pontos apresentados e aproximam as pe\u00e7as formando o todo (o senso de justi\u00e7a, o despertar do sentimento amoroso e da sensualidade).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Terceira parte<\/strong> \u2013 Observando os recursos aqui empregados, o leitor se d\u00e1 conta de uma altera\u00e7\u00e3o no mundo enfocado. \u00c9 uma agita\u00e7\u00e3o revelada na presen\u00e7a de diferentes tempos verbais. O emprego do imperativo (<em>n\u00e3o fuja, finja, vem, me d\u00ea<\/em>) se mistura ao emprego do imperfeito (<em>era, tinha<\/em>), do presente (<em>acho<\/em>) e do mais que perfeito (<em>tinha nascido<\/em>). A sequ\u00eancia de chamados revela um estado de alma diferente do inicial. O menino, o adolescente, cresceu e se depara com um sentimento novo \u2013 ele est\u00e1 apaixonado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Quarta parte <\/strong>\u2013 Nota-se nessa quarta parte um novo procedimento na utiliza\u00e7\u00e3o dos verbos, misturando-se pret\u00e9rito imperfeito, pret\u00e9rito perfeito e futuro; a escolha gramatical e sem\u00e2ntica refletindo a agita\u00e7\u00e3o emocional do personagem, que se pergunta numa demonstra\u00e7\u00e3o de assombro: <em>o que \u00e9 que a vida vai fazer de mim?<\/em> \u00c9 o tempo da inf\u00e2ncia que se fecha, desaparece o espa\u00e7o conhecido (<em>esse quintal<\/em>) e o mundo adulto vai se impondo, ainda n\u00e3o revelado (<em>uma noite que n\u00e3o tem mais fim<\/em>). Justifica-se, assim, a pergunta que encerra o poema\/can\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a imagem apresentada ao leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Uma \u00faltima observa\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2013 O t\u00edtulo \u00e9 sempre um detalhe muito especial na elabora\u00e7\u00e3o de um texto: pode ser uma ironia, um encaminhamento, uma palavra\/frase que resume a inten\u00e7\u00e3o do texto. Aqui temos <strong>Jo\u00e3o e Maria<\/strong>, uma hist\u00f3ria de todos conhecida e uma das mais presentes no imagin\u00e1rio infantil. Destaque-se que, em <strong>Jo\u00e3o e Maria<\/strong>, a hist\u00f3ria, temos todos os elementos presentes tamb\u00e9m na can\u00e7\u00e3o: a inf\u00e2ncia, a perda, o medo, o enfrentamento do desconhecido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora eu era o her\u00f3i E o meu cavalo s\u00f3 falava ingl\u00eas A noiva do cowboy Era voc\u00ea al\u00e9m das outras tr\u00eas Eu enfrentava os batalh\u00f5es Os alem\u00e3es e seus canh\u00f5es Guardava o meu bodoque E ensaiava o rock para as matin\u00eas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":65,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-64","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-textos-comentados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/textos-comentados\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}