{"id":221,"date":"2020-06-22T10:17:35","date_gmt":"2020-06-22T13:17:35","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/?p=221"},"modified":"2020-06-22T10:40:42","modified_gmt":"2020-06-22T13:40:42","slug":"o-conto-em-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/o-conto-em-machado-de-assis\/","title":{"rendered":"O Conto em Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado <strong>O texto no espa\u00e7o virtual: a leitura em rede<\/strong>, &nbsp;de Clarmi Regis<\/em><\/p>\n<p>S\u00f4nia Brayner nos informa que a produ\u00e7\u00e3o do contista Machado de Assis se inicia em 1858 (com <em>Tr\u00eas tesouros perdidos<\/em>) e estende-se aos in\u00edcios do s\u00e9culo XX, com a produ\u00e7\u00e3o de quase 300 contos, publicados nos jornais e revistas da \u00e9poca. \u201c<em>O conto tornou-se em suas m\u00e3os mat\u00e9ria d\u00factil, com fisionomia reconhec\u00edvel, na qual [&#8230;] exercia a magia encantat\u00f3ria de suas varia\u00e7\u00f5es sobre o tema predileto: a humanidade com seus v\u00edcios intemporais.<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Em <em>Murm\u00farios no espelho<\/em>, an\u00e1lise que apresenta os <strong>Contos<\/strong> de Machado de Assis, Fl\u00e1vio Aguiar aponta a diferen\u00e7a entre conto e romance: \u201c<em>O romance procura representar o mundo como um todo: persegue a espinha dorsal e o conjunto da sociedade. O conto \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma pequena parte desse conjunto. Mas n\u00e3o de qualquer parte, e sim daquela especial de que se pode tirar algum sentido [&#8230;]<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> E \u00e9 um profundo sentido da flutua\u00e7\u00e3o dos valores \u00e9ticos, da predomin\u00e2ncia de valores gastos e hip\u00f3critas, da acomoda\u00e7\u00e3o do homem a interesses falsos, da irredut\u00edvel passagem do tempo, das perdas morais, da decad\u00eancia f\u00edsica, da presen\u00e7a da morte, da proximidade da loucura que Machado de Assis revela em seus contos.<\/p>\n<p>Embora o conto liter\u00e1rio j\u00e1 viesse se firmando no Brasil a partir de meados do s\u00e9culo XIX, com \u00c1lvares de Azevedo e Bernardo Guimar\u00e3es, \u00e9 com Machado de Assis que essa forma ficcional revela todas as suas possibilidades. Reconhecido como o maior prosador da literatura brasileira, a produ\u00e7\u00e3o de seus romances marcada pela habilidade de construir textos mesclados da ironia nascida da observa\u00e7\u00e3o da sociedade em que vivia, \u00e9 principalmente como contista que se revela um narrador capaz de prender e conduzir a aten\u00e7\u00e3o de seu leitor.<\/p>\n<p>Nos contos machadianos, revela-se uma sociedade habitada por seres solit\u00e1rios capazes de alcan\u00e7ar t\u00e3o somente uma felicidade mesquinha. A vida desenrola-se como alguma coisa que escapa ao controle das personagens, alheia a suas vontades. A sociedade de conven\u00e7\u00f5es a todos esmaga e a eles imp\u00f5e vidas inaut\u00eanticas, vazias.<\/p>\n<p>O contador de casos, que se distancia, numa postura liter\u00e1ria de observador, e revela uma vis\u00e3o abrangente da sociedade do Segundo Imp\u00e9rio e da Primeira Rep\u00fablica, faz do leitor uma presen\u00e7a constante em suas narrativas. \u00c9 como se a ironia que destila em seus per\u00edodos curtos e marcantes fosse resultante do distanciamento procurado para a observa\u00e7\u00e3o e devesse ser partilhada com o leitor, com o qual divide observa\u00e7\u00f5es e do qual cobra o mesmo n\u00e3o envolvimento.&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre a ironia, ensina ainda Fl\u00e1vio Aguiar: \u201c<em>na ironia est\u00e1 uma das vigas mestras da arte de escrever contos, ressaltada pela urg\u00eancia do pouco espa\u00e7o [&#8230;]<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Machado de Assis mostra extrema habilidade na elabora\u00e7\u00e3o de seus contos de observa\u00e7\u00e3o e psicol\u00f3gicos, com foco narrativo autobiogr\u00e1fico, em que o ponto de vista da personagem narradora e suas motiva\u00e7\u00f5es tornam-se exclusivas. A ironia vai-se expandindo n\u00e3o s\u00f3 na an\u00e1lise dos h\u00e1bitos socioculturais da sociedade do Rio de Janeiro, mas na observa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza humana, apresentada em seus v\u00edcios e limita\u00e7\u00f5es permanentes. A apresenta\u00e7\u00e3o das personagens atende ao desenvolvimento dessa que foi a sua tem\u00e1tica mais constante e se projeta no aspecto psicol\u00f3gico que os revela.<\/p>\n<p>Senso de observa\u00e7\u00e3o, pessimismo, ironia, sensualidade e um ineg\u00e1vel senso de humor com que equilibra o pessimismo s\u00e3o aspectos enfeixados em sua arte combinat\u00f3ria capazes de fazer de seus contos o que Alfredo Bosi chama de \u201c<em>um dos caminhos permanentes da prosa brasileira na dire\u00e7\u00e3o da profundidade e da universalidade<\/em>\u201d. <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><a name=\"_Toc1464396\"><\/a><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>Sobre a realiza\u00e7\u00e3o do conto, tinha Machado de Assis o cuidado de n\u00e3o cansar o leitor. Mais: alertava para o processo de cria\u00e7\u00e3o: \u201c<em>[&#8230;] \u00c9 g\u00eanero dif\u00edcil, a despeito da aparente facilidade, e creio que essa mesma apar\u00eancia lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e n\u00e3o lhe dando, penso eu, o p\u00fablico toda a aten\u00e7\u00e3o de que ele \u00e9 muitas vezes credor<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 execu\u00e7\u00e3o formal dos contos de Machado de Assis, apresenta S\u00f4nia Brayner as variantes seguintes:<\/p>\n<ol>\n<li><em>desenvolvimento de um incidente marcante, com cronologia sequencial linear;<\/em><\/li>\n<li><em>an\u00e1lise de motiva\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas;<\/em><\/li>\n<li><em>ado\u00e7\u00e3o de formas liter\u00e1rias tradicionais, com inten\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico-moralizante;<\/em><\/li>\n<li><em>an\u00e1lise de um car\u00e1ter.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup><strong>[6]<\/strong><\/sup><\/a><\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p>Raros s\u00e3o os contos aned\u00f3ticos de Machado de Assis (<em>Pai e m\u00e3e<\/em>, <em>A cartomante<\/em>). Sua prefer\u00eancia estava em desenhar aspectos do psiquismo humano e revelar os valores desgastados de uma sociedade desencadeadora de comportamentos e situa\u00e7\u00f5es equ\u00edvocas.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Brayner alerta o leitor: \u201c<em>Saborear um texto machadiano n\u00e3o \u00e9 uma tarefa \u2018simples\u2019: a leitura de reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa, pois envolve uma dupla decodifica\u00e7\u00e3o \u2013 o que est\u00e1 sendo afirmado no n\u00edvel da hist\u00f3ria e o que est\u00e1 sendo veiculado sobre um texto anterior na invers\u00e3o quase sistem\u00e1tica proposta pelo autor<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>OBS.: Voc\u00ea encontra toda a obra de Machado de Assis no s\u00edtio <strong>Biblioteca Digital de Literatura de Pa\u00edses Lus\u00f3fonos<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.literaturabrasileira.ufsc.br\/?locale=pt_BR\">https:\/\/www.literaturabrasileira.ufsc.br\/?locale=pt_BR<\/a> da Universidade Federal de Santa Catarina.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> BRAYNER, S\u00f4nia (org.). <strong>O conto de Machado de Assis<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1981, p. 8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> AGUIAR, Fl\u00e1vio. <em>Murm\u00farios no espelho<\/em>. In: ASSIS, Machado. <strong>Contos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1976, p. 6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> AGUIAR, Fl\u00e1vio. <em>Murm\u00farios no espelho<\/em>. In: ASSIS, Machado. <strong>Contos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1976, p. 6.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> BOSI, Alfredo. <strong>Hist\u00f3ria concisa da literatura brasileira<\/strong>. 3 ed. 10 tir. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1987, p. 203.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> ASSIS, Machado de. <strong>Obra completa<\/strong>. 2ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1962, v. 3, p. 806, apud BRAYNER, S\u00f4nia (org.). <strong>O conto de Machado de Assis<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1981, p. 8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> BRAYNER, S\u00f4nia (org.). <strong>O conto de Machado de Assis<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1981, 12.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> BRAYNER, S\u00f4nia (org.). <strong>O conto de Machado de Assis<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1981, p.14.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 com Machado de Assis que essa forma ficcional revela todas as suas possibilidades. 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