{"id":211,"date":"2019-11-21T14:51:42","date_gmt":"2019-11-21T17:51:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/?p=211"},"modified":"2020-06-22T10:37:55","modified_gmt":"2020-06-22T13:37:55","slug":"o-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/o-conto\/","title":{"rendered":"O Conto"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado <strong>O texto no espa\u00e7o virtual: a leitura em rede<\/strong>, &nbsp;de Clarmi Regis<\/em><\/p>\n<p>Calcula-se que o h\u00e1bito de ouvir e de contar hist\u00f3rias venha acompanhando a humanidade em sua trajet\u00f3ria no espa\u00e7o e no tempo. Em que momento o primeiro agrupamento humano se sentou ao redor da fogueira para ouvir as narrativas fant\u00e1sticas ou did\u00e1ticas capazes de atrair a aten\u00e7\u00e3o e o gosto dos presentes e de deixar, no rastro de magia em que eram envolvidas, uma li\u00e7\u00e3o e\/ou um momento de prazer?<br \/>\nO que se pode afirmar \u00e9 que todos os povos, em todas as \u00e9pocas, cultivaram seus contos. Contos an\u00f4nimos, preservados pela tradi\u00e7\u00e3o, mantiveram valores e costumes, ajudaram a explicar a hist\u00f3ria, iluminaram as noites dos tempos.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nDe Sherazade (uma voz de mulher que conta mil e um contos nas <em>Mil e uma noites<\/em>, fazendo, dessa forma, a compila\u00e7\u00e3o dos contos mais conhecidos no final da Idade M\u00e9dia) aos contistas contempor\u00e2neos, a narrativa curta tem sido observada com especial interesse.<br \/>\nA f\u00f3rmula de compila\u00e7\u00e3o e narra\u00e7\u00e3o de contos at\u00e9 ent\u00e3o mantidos no ide\u00e1rio popular adotada nas <em>Mil e uma noites<\/em> foi largamente repetida por muitos autores nos anos subsequentes (veja-se, por exemplo, o <em>Decamer\u00e3o<\/em>, de Bocaccio).<br \/>\nAos poucos, novas modalidades de contos foram surgindo, diferenciando-se dos contos infantis e dos contos populares, regidos agora por uma nova maneira de narrar, de acordo com a \u00e9poca, os movimentos art\u00edsticos que essa \u00e9poca produziu e o estilo individual do autor\/narrador.<br \/>\nLuzia de Maria, no volume <strong>O que \u00e9 conto<\/strong>, da cole\u00e7\u00e3o Primeiros Passos, introduz seu leitor na discuss\u00e3o das v\u00e1rias modalidades de conto, come\u00e7ando por distinguir <em>\u201co conto como forma simples, express\u00e3o do maravilhoso, linguagem que fala de prod\u00edgios fant\u00e1sticos, oralmente transmitido de gera\u00e7\u00f5es a gera\u00e7\u00f5es e o conto adquirindo uma formula\u00e7\u00e3o art\u00edstica, liter\u00e1ria, escorregando do dom\u00ednio coletivo da linguagem para o universo do estilo individual de um certo escritor\u201d<\/em> \u00b9.<br \/>\nE surgiram os contos de humor, os contos fant\u00e1sticos, os contos de mist\u00e9rio e terror, os contos realistas, os contos psicol\u00f3gicos, os contos sombrios, os contos c\u00f4micos, os contos religiosos, os contos minimalistas, os contos estruturados de acordo com as t\u00e9cnicas da narrativa.<br \/>\nRicardo Piglia assegura que o segredo de um conto bem escrito \u00e9 que, na realidade, todo conto conta duas hist\u00f3rias: uma em primeiro plano e outra que se constr\u00f3i em segredo. A arte do contista estaria em entrela\u00e7ar ambas e, s\u00f3 ao final, pelo elemento surpresa, revelar a hist\u00f3ria que se construiu abaixo da superf\u00edcie em que a primeira se desenrola. As duas hist\u00f3rias encontram-se nos pontos de cruzamento que v\u00e3o dando corpo a ambas, embora o que pare\u00e7a sup\u00e9rfluo numa seja elemento imprescind\u00edvel na arma\u00e7\u00e3o da outra.<br \/>\nA hist\u00f3ria vis\u00edvel e a hist\u00f3ria secreta, segundo ele, recebem diferentes tratamentos no conto cl\u00e1ssico e no conto moderno. No primeiro, uma hist\u00f3ria \u00e9 contada anunciando a outra; nos contos modernos, as duas hist\u00f3rias aparecem como se fossem uma s\u00f3.<br \/>\nNa forma reduzida do conto, a intensidade da busca: <em>\u201cO conto se constr\u00f3i para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experi\u00eancia \u00fanica que nos permita ver, sob a superf\u00edcie opaca da vida, uma verdade secreta.\u201d&nbsp;<\/em>\u00b2<br \/>\nAs qualidades que lhe s\u00e3o apontadas s\u00e3o a concis\u00e3o e a brevidade, ou seja, \u00e9 estruturado com uma linguagem densa, com o m\u00e1ximo de economia de palavras. Sua dimens\u00e3o se d\u00e1 no sentido da profundidade.<br \/>\nO conto de fei\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica se organiza numa cadeia de acontecimentos que centralizam o poder de atra\u00e7\u00e3o, apresentando, consequentemente, a\u00e7\u00e3o, personagens, di\u00e1logos. Caracteriza-se como narra\u00e7\u00e3o de um epis\u00f3dio, uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o, com come\u00e7o, meio e fim, concentrado num mesmo espa\u00e7o f\u00edsico, num tempo reduzido. Destaca-se por sua unidade de tempo e de a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO conto contempor\u00e2neo, reflexo da nova narrativa que se foi construindo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, substituiu a estrutura cl\u00e1ssica pela constru\u00e7\u00e3o de um texto curto, com o objetivo de conduzir o leitor para al\u00e9m do dito, para a descoberta de um sentido do n\u00e3o-dito. A a\u00e7\u00e3o se torna ainda mais reduzida, surgem mon\u00f3logos, a explora\u00e7\u00e3o de um tempo interior, psicol\u00f3gico, a linguagem pode, muitas vezes chocar pela rudeza, pela den\u00fancia do que n\u00e3o se quer ver. Desaparece a constru\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica tradicional que exigia um desenvolvimento, um cl\u00edmax e um desenlace. Em contrapartida, cobra a participa\u00e7\u00e3o do leitor, para que os aspectos constitutivos da narrativa possam por ele ser encontrados e apreciados. Exige uma leitura que descortine n\u00e3o s\u00f3 o que \u00e9 contado, mas, principalmente, a forma como o texto se realiza.<br \/>\n[1] REIS, Luzia de Maria R. <strong>O que \u00e9 o conto<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987, p. 10.<br \/>\n[2] PIGLIA, Ricardo. <em>Teses sobre o conto<\/em>. Caderno MAIS, <strong>Folha de S\u00e3o Paulo<\/strong>, domingo, 30 de dezembro de 2001, p. 24.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calcula-se que o h\u00e1bito de ouvir e de contar hist\u00f3rias venha acompanhando a humanidade em sua trajet\u00f3ria no espa\u00e7o e no tempo. 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