{"id":207,"date":"2019-04-24T15:53:42","date_gmt":"2019-04-24T18:53:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/?p=207"},"modified":"2019-04-24T15:53:42","modified_gmt":"2019-04-24T18:53:42","slug":"generos-parte-2-narrativa-narracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/elaboracao-do-texto\/generos-parte-2-narrativa-narracao\/","title":{"rendered":"G\u00eaneros parte 2 &#8211; Narrativa \/ Narra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1>G\u00eaneros<\/h1>\n<h2>NARRA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o caracteriza-se por apresentar <strong>fatos<\/strong> <strong><span style=\"background-color: yellow;\"> (a\u00e7\u00e3o)<\/span><\/strong> que se desenrolam em determinado <strong>tempo<\/strong> e <strong>lugar<\/strong>, com a atua\u00e7\u00e3o de uma ou mais <strong>personagens<\/strong>.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o ou narrativa est\u00e1 presente no decorrer de toda a vida do indiv\u00edduo, seja no gosto de ouvir hist\u00f3rias, seja no prazer de cont\u00e1-las.<\/p>\n<p>Assim como comparamos a descri\u00e7\u00e3o a uma fotografia ou a uma pintura, podemos comparar a narrativa a um filme: enquanto o filme se vale de imagens e ambienta\u00e7\u00f5es onde as personagens vivem suas hist\u00f3rias, a narra\u00e7\u00e3o ou narrativa apresenta o desenrolar dos fatos, valendo-se apenas da combina\u00e7\u00e3o das palavras para criar cen\u00e1rios e apontar o tempo em que as a\u00e7\u00f5es se passam.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Narrativas acompanham a aventura humana desde as vig\u00edlias ao redor das fogueiras at\u00e9 as rodas de conversa dos grupos de amigos na atualidade. \u00c9 a narrativa trazida pelos pais no momento do aconchego que povoa o imagin\u00e1rio das crian\u00e7as (Era uma vez&#8230;). \u00c9 ela que eterniza a Hist\u00f3ria e d\u00e1 perman\u00eancia ao conhecimento acumulado pela humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de uma narrativa se faz por interm\u00e9dio de um narrador. Este pode ou n\u00e3o ser personagem dos acontecimentos, ou seja, pode ser um simples observador, uma voz que narra, ou um algu\u00e9m que participa da trama (da hist\u00f3ria, dos fatos).<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa (eu) apresenta um vi\u00e9s mais subjetivo, mais emotivo, menos imparcial. Em terceira pessoa, o narrador eventualmente participa da a\u00e7\u00e3o; em outras, \u00e9 o olhar que observa e a voz que aponta os fatos a certa dist\u00e2ncia emocional, de forma mais objetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Descubra a beleza das narra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao s\u00e9timo dia, lembrou-se de fixar mentalmente uma prefer\u00eancia e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel, perdeu tamb\u00e9m; veio \u00e0 surucucu, \u00e0 jiboia, \u00e0 jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma trist\u00edssima fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem raz\u00e3o, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o determinou a isto foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu pol\u00edcia, o menino foi levado \u00e0 farm\u00e1cia, o cocheiro ao posto da guarda. Camilo s\u00f3 reparou bem no n\u00famero do carro, cuja termina\u00e7\u00e3o correspondia ao carneiro; adotou o carneiro. O carneiro n\u00e3o foi mais feliz que a cobra. <\/em>[&#8230;]<\/p>\n<p><em>Jogo, <\/em>Machado de Assis, em <strong>Outros Contos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto que voc\u00ea acabou de ler \u00e9 parte de um conto de Machado de Assis, considerado o maior narrador da literatura brasileira. Observe as personagens que comp\u00f5em a hist\u00f3ria e a import\u00e2ncia que assume sua localiza\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e no tempo da narrativa.<\/p>\n<p>Aqui encontramos: a voz que conta (o narrador), simples observador, n\u00e3o \u00e9 personagem da hist\u00f3ria. Por isso, a narra\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em terceira pessoa.<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o tem Camilo como personagem central. Outras personagens (secund\u00e1rias) completam a trama (o menino, a pol\u00edcia, o cocheiro). E a hist\u00f3ria se tece, de forma objetiva, um tanto ir\u00f4nica, por conta do narrador. Tempo e espa\u00e7o em que a situa\u00e7\u00e3o ocorre completam os elementos necess\u00e1rios \u00e0 composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>OBSERVA\u00c7\u00c3O: Voc\u00ea deve ter notado que usamos a palavra <strong>personagem<\/strong> no feminino. \u00c9 um substantivo sobrecomum: tem s\u00f3 uma forma para os dois g\u00eaneros (sim, \u00e9 isso mesmo: <strong>a personagem<\/strong>, assim como <strong>a crian\u00e7a<\/strong>). A forma <strong>o personagem<\/strong>, no entanto, vem sendo adotada com bastante liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As narrativas de cunho psicol\u00f3gico surpreendem ao registrar atmosferas (tempo e espa\u00e7o) muito particulares \u2013 tempo interior, espa\u00e7os de sonho, desvarios, devaneios, <em>flashbacks<\/em>.<\/p>\n<p>Abaixo voc\u00ea pode ler um conto psicol\u00f3gico. Nele os aspectos sens\u00edveis, a tens\u00e3o, s\u00e3o destacados, deixando em segundo plano, por menos relevante, a cadeia de acontecimentos.<\/p>\n<p><em>A fam\u00edlia foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem-vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paet\u00eas e um drapejado disfar\u00e7ando a barriga sem cinta. O marido n\u00e3o veio por raz\u00f5es \u00f3bvias: n\u00e3o queria ver os irm\u00e3os. Mas mandara sua mulher para que nem todos os la\u00e7os fossem cortados \u2014 e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que n\u00e3o precisava de nenhum deles, acompanhada dos tr\u00eas filhos: duas meninas j\u00e1 de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e an\u00e1guas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. Tendo Zilda \u2013 a filha com quem a aniversariante morava \u2013 disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dan\u00e7ar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posi\u00e7\u00e3o de ultrajada. \u201cVim para n\u00e3o deixar de vir\u201d, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, n\u00e3o sabiam bem que atitude tomar e ficaram de p\u00e9 ao lado da m\u00e3e, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paet\u00eas. Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a bab\u00e1. O marido viria depois. E como Zilda \u2014 a \u00fanica mulher entre os seis irm\u00e3os homens e a \u00fanica que, estava decidido j\u00e1 havia anos, tinha espa\u00e7o e tempo para alojar a aniversariante \u2014, e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sandu\u00edches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de cora\u00e7\u00e3o inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o beb\u00ea para n\u00e3o encarar a concunhada de Olaria; a bab\u00e1 ociosa e uniformizada, com a boca aberta. E \u00e0 cabeceira da mesa grande a aniversariante, que fazia hoje oitenta e nove anos. Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papel\u00e3o alusivos \u00e0 data, espalhara bal\u00f5es sugados pelo teto, em alguns dos quais estava escrito \u201cHappy Birthday!\u201d, em outros, \u201cFeliz Anivers\u00e1rio!\u201d. No centro havia disposto o enorme bolo a\u00e7ucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almo\u00e7o, encostara as cadeiras \u00e0 parede, mandara os meninos brincar no vizinho para que n\u00e3o desarrumassem a mesa. E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almo\u00e7o. Pusera-lhe desde ent\u00e3o a presilha em torno do pesco\u00e7o e o broche, borrifara-lhe um pouco de \u00e1gua-de-col\u00f4nia para disfar\u00e7ar aquele seu cheiro de guardado \u2014 sentara-a \u00e0 mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada \u00e0 cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro bal\u00e3o estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela ang\u00fastia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo. <\/em><\/p>\n<p><em>Feliz Anivers\u00e1rio<\/em>, de Clarice Lispector, em <strong>La\u00e7os de fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>OBSERVA\u00c7\u00c3O 2: A narrativa faz parte de nosso cotidiano. Ela n\u00e3o aparece apenas em textos liter\u00e1rios ou jornal\u00edsticos, mas tamb\u00e9m em nosso trabalho t\u00e9cnico, sob a forma de despachos, pareceres, relat\u00f3rios, atas, presta\u00e7\u00f5es de contas e outros documentos redigidos no dia a dia das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>G\u00eaneros NARRA\u00c7\u00c3O A narra\u00e7\u00e3o caracteriza-se por apresentar fatos (a\u00e7\u00e3o) que se desenrolam em determinado tempo e lugar, com a atua\u00e7\u00e3o de uma ou mais personagens. 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