{"id":58,"date":"2018-11-13T11:30:38","date_gmt":"2018-11-13T13:30:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=58"},"modified":"2019-02-22T10:53:48","modified_gmt":"2019-02-22T13:53:48","slug":"12-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/12-paris\/","title":{"rendered":"12. Paris"},"content":{"rendered":"<p><em>Qu\u2019est ce qu\u2019on fait? C\u2019est l\u2019\u00e9t\u00e9.<\/em><\/p>\n<p><em>Et, les touristes?<\/em><\/p>\n<p><em>Les touristes? Ils reviennent&#8230; Toutes les ann\u00e9es c\u2019est la m\u00eame chose. <\/em><em>Quoi faire?<\/em><\/p>\n<p>Como n\u00e3o amar Paris, a cidade que a magia do cinema eternizou em nosso imagin\u00e1rio?\u00a0 Ah! As luzes de Paris, as pontes de Paris, o rio Sena e a promessa de encantamento na espuma deixada por seus barcos.<\/p>\n<p>Paris de muitas hist\u00f3rias, de diferentes facetas, de m\u00faltiplas verdades. Paris de tantos her\u00f3is, de tantas guerras.<\/p>\n<p>A aura de luz, de glamour, de paix\u00e3o e tamb\u00e9m de revolu\u00e7\u00e3o, faz de cada cidad\u00e3o do mundo um entusiasta por Paris. <em>La Marseillaise<\/em> ainda embala nossos sonhos de liberdade.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda da esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4, esperamos pelos ecos de Edith Piaf cantando <em>Rien de rien, je ne regrette rien.<\/em><\/p>\n<p>As vozes que se misturam nas ruas somam os sons melodiosos do Franc\u00eas falado pelos <em>francophones<\/em> \u00e0 algaravia de m\u00faltiplos falares, desde o Ingl\u00eas \u2013 antes t\u00e3o repudiado \u2013 trazido pelos turistas e <em>migrants<\/em> de todas as partes do mundo at\u00e9 o mosaico de vozes dos <em>mis\u00e9rables<\/em> acomodados em <em>banlieus<\/em>.<\/p>\n<p>Elegantes, s\u00f3brios, <em>hautains<\/em>, os <em>citoyens<\/em> mais velhos, ciosos de sua hist\u00f3ria e de sua linhagem, caminham pelas cal\u00e7adas sobra\u00e7ando jornais ou pacotes de p\u00e3es e deixando transparecer um sentimento misto de orgulho e alheamento. Tamb\u00e9m os jovens, envolvidos no mundo dos neg\u00f3cios ou das artes, transpiram eleg\u00e2ncia. A <em>pashmina<\/em> lhes confere uma gra\u00e7a \u00fanica, ausente em qualquer outro meridiano.<\/p>\n<p>Destacam-se nas ruas os franceses chegados das antigas col\u00f4nias. Sabem-se protegidos pelas leis que lhes garantem a nacionalidade, mas sabem tamb\u00e9m que os irm\u00e3os que os acolhem, ao mesmo tempo, deles se protegem assustados pelas profundas diferen\u00e7as culturais.<\/p>\n<p>Os passos dos que se recolhem a casa ao fim do expediente abrem caminho entre os jovens desempregados reunidos nas cal\u00e7adas, ra\u00edzes presas a fenecidos sonhos. Em grupo, sentem-se mais fortes e at\u00e9 amea\u00e7adores. A eles se misturam os <em>sans papiers<\/em><em> \u2013 <\/em>Esmeraldas em busca de seu Quas\u00edmodo<em>.<\/em><\/p>\n<p>As cores se confundem nos tons de pele, olhos e cabelos, nos tecidos mesclados em arranjos que denunciam a origem dos <em>arrivants<\/em>. As africanas \u2013 belas est\u00e1tuas a desfilar seus coloridos trajes t\u00edpicos \u2013, atentas aos filhos que as acompanham, caminham, com serenidade e altivez. As origin\u00e1rias dos v\u00e1rios Estados \u00e1rabes exp\u00f5em sinais de riqueza \u2013 estas rodeadas de crian\u00e7as e empregadas (quase sempre com tra\u00e7os malaios) \u2013 ou de pobreza suportada com dignidade, f\u00e1cil de encontrar at\u00e9 mesmo entre os pedintes e os residentes nos <em>quartiers d\u00e9favoris\u00e9s<\/em>.<\/p>\n<p>Fazendo compras em Paris, n\u00e3o tenha pressa: <em>La vie est belle<\/em>. <em>Toujours.<\/em><\/p>\n<p><em>Le proche<\/em>, anuncia a atendente com um sorriso simp\u00e1tico, para, em seguida informar: <em>J&#8217;ai fini mon quart de travail. Mon coll\u00e8gue est en train d&#8217;arriver.<\/em><\/p>\n<p>Sem desviar os olhos, para demonstrar que n\u00e3o mente, pega o telefone e convoca o retardat\u00e1rio: <em>Tu es en retard; oui, oui, je t\u2019attend&#8230;<\/em><\/p>\n<p>De um m\u00f3vel embutido embaixo da m\u00e1quina registradora, extrai uma reduzida bolsa, de dentro da qual, pacientemente, retira pequenos sacos pl\u00e1sticos. Em cada um deles, vai acomodando as moedas at\u00e9 ali guardadas na gaveta coletora, separadas em diferentes compartimentos segundo o seu valor. Fecha a sacolinha \u2013 agora cheia de moedas \u2013 e a coloca dentro da pr\u00f3pria bolsa. Informa ent\u00e3o aos fregueses na fila: <em>Mon coll\u00e8gue est arriv\u00e9<\/em>, e, voltando-se para o jovem que chega, cumprimenta-o com um beijinho em cada lado: <em>Bisou, bisou&#8230; et au revoir<\/em>. <em>\u00c0 bient\u00f4t!<\/em><\/p>\n<p><em>Le coll\u00e8gue<\/em>, ap\u00f3s calmamente abrir a sacola que traz consigo e dela retirar os j\u00e1 esperados saquinhos de moedas que v\u00e3o sendo acomodadas nos espa\u00e7os a elas reservados, ergue os olhos e, sorrindo, pergunta ao fregu\u00eas a sua frente: <em>Qu\u2019est ce que vous avez choisi?.<\/em><\/p>\n<p>Pressa t\u00eam os turistas, sempre impacientes e afogueados: aglomeram-se nas pra\u00e7as, empurram-se nos pontos hist\u00f3ricos, como se Paris lhes fosse escapar por entre os dedos. Em conversa com outros turistas que se confessam debutantes, enchem o peito, orgulhosos, quase se sentindo parisienses, e detalham suas experi\u00eancias anteriores na Cidade Luz.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, estando no metr\u00f4, seja r\u00e1pido para n\u00e3o ser arrastado para fora e abandonado em alguma plataforma desconhecida. A maioria olha sem nada ver a seu redor. Focados os passageiros nos bancos vazios ou nas portas de sa\u00edda em que se aglomeram muito antes de se aproximarem as paradas, dif\u00edcil entrar, dif\u00edcil sair, dif\u00edcil at\u00e9 mesmo ser educado.<\/p>\n<p>Nas escadas rolantes, aperte-se \u00e0 direita e libere espa\u00e7o suficiente para aqueles \u2013 talvez retardat\u00e1rios, talvez impacientes \u2013 que passam correndo a seu lado.<\/p>\n<p>H\u00e1 coisas s\u00f3 vistas em Paris: a <em>baguette<\/em> apertada embaixo do bra\u00e7o, os doces \u00fanicos, os queijos acompanhados de vinho, os vinhos acompanhados de can\u00e7\u00f5es, a atmosfera que insinua paix\u00f5es, os monumentos que traduzem hero\u00edsmo, a fragilidade transformada em resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essencial para entender o cotidiano vivido em Paris \u00e9 entender a extrema valoriza\u00e7\u00e3o de suas f\u00e9rias de ver\u00e3o: ruas inteiras de com\u00e9rcio fechado, bairros inteiros com bilhetes escritos a m\u00e3o pespegados em suas portas e vitrines:\u00a0<em>Ferm\u00e9. <\/em><em>Nous sommes retourn\u00e9s \u00e0 la premi\u00e8re semaine septembre.<\/em><\/p>\n<p><em>Et les touristes?<\/em><\/p>\n<p><em>Ils reviennent. C\u2019est l\u2019\u00e9t\u00e9, quoi faire?<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qu\u2019est ce qu\u2019on fait? C\u2019est l\u2019\u00e9t\u00e9. Et, les touristes? Les touristes? Ils reviennent&#8230; Toutes les ann\u00e9es c\u2019est la m\u00eame chose. Quoi faire? Como n\u00e3o amar Paris, a cidade que a magia do cinema eternizou em nosso imagin\u00e1rio?\u00a0 Ah! 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