{"id":53,"date":"2018-09-30T18:42:49","date_gmt":"2018-09-30T21:42:49","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=53"},"modified":"2019-02-22T10:52:28","modified_gmt":"2019-02-22T13:52:28","slug":"10-quiridu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/10-quiridu\/","title":{"rendered":"10. Quiridu"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 aqui, n\u00e9 quirida?!\u201d Assim o taxista anuncia minha chegada ao destino.<\/p>\n<p>Somente quem nasceu em Florian\u00f3polis ou nela viveu por muito tempo consegue entender a import\u00e2ncia de quiridar-se \u2013 verbo criado pelo professor J\u00falio de Queiroz, grande conhecedor da alma manezinha.<\/p>\n<p>Sejam \u00edntimos ou rec\u00e9m-conhecidos, todos aqui se quiridam. Iniciando a conversa\u00e7\u00e3o, a palavra serve de chamado e inclus\u00e3o. O interlocutor deixa de ser um estranho para se tornar parte de uma conversa\u00e7\u00e3o. Colocada no final de uma observa\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o dulcifica e aplaca a dureza que possa acompanhar a fala. D\u00e1 a deixa para a mensagem do outro e informa que ali est\u00e1 algu\u00e9m pronto a ouvir.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quiridu, al\u00e9m de um coringa na organiza\u00e7\u00e3o do pensamento, \u00e9 tamb\u00e9m express\u00e3o que revela o car\u00e1ter de uma popula\u00e7\u00e3o. O florianopolitano n\u00e3o faz da agressividade um elemento comum a seu cotidiano; procura atenuar os revezes com os matizes da cordialidade. A substitui\u00e7\u00e3o das vogais <strong>e<\/strong> e <strong>o <\/strong>pelos sons <strong>i<\/strong> e<strong> u<\/strong> obrigam a uma diferente cad\u00eancia na emiss\u00e3o dos sons, que se atenuam e envolvem o receptor numa atmosfera de cumplicidade.<\/p>\n<p>Suavizada, a palavra n\u00e3o reveste, por\u00e9m, uma declara\u00e7\u00e3o, uma cantada, sinal que permita qualquer intimidade ou aproxima\u00e7\u00e3o amorosa. Quiridu \u00e9 vocativo a facilitar a conversa\u00e7\u00e3o e a conviv\u00eancia. Muitas vezes tido como ing\u00eanuo, o manezinho se revela\/protege numa deliciosa linguagem que cabe ao visitante incorporar.<\/p>\n<p>\u201cO manezinho usa essa fala gentil, mas fica na superficialidade: as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o se aprofundam\u201d \u00e9 a queixa de muitos. Nesse caso, sendo verdade, quiridu funciona como armadura, escudo, prote\u00e7\u00e3o. Quiridu \u00e9 a m\u00e3o que, ao mesmo tempo, estende-se para o di\u00e1logo e marca o espa\u00e7o at\u00e9 onde \u00e9 permitida a aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O conhecimento m\u00fatuo e a conviv\u00eancia v\u00e3o derrubando os medos, criando la\u00e7os e permitindo ao visitante ou arrivista ver o nativo desprovido de m\u00e1scaras e cuidados. O estranho conhecer\u00e1 ent\u00e3o a compreens\u00e3o e a hospitalidade, o carinho e a lealdade mesclados a um senso de humor que descamba para a ironia e o deboche. Poder\u00e1, aos poucos, habitar o mundo m\u00e1gico povoado de bruxas e segredos em que vive o manezinho e que tanto fascina o catarinense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 aqui, n\u00e9 quirida?!\u201d Assim o taxista anuncia minha chegada ao destino. Somente quem nasceu em Florian\u00f3polis ou nela viveu por muito tempo consegue entender a import\u00e2ncia de quiridar-se \u2013 verbo criado pelo professor J\u00falio de Queiroz, grande conhecedor da alma manezinha. Sejam \u00edntimos ou rec\u00e9m-conhecidos, todos aqui se quiridam. 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