{"id":47,"date":"2018-10-17T10:13:56","date_gmt":"2018-10-17T13:13:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=47"},"modified":"2019-02-22T10:52:58","modified_gmt":"2019-02-22T13:52:58","slug":"palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/palavras\/","title":{"rendered":"11. Palavras"},"content":{"rendered":"<p>Quase posso ouvir o som dos bra\u00e7os de meu professor de Latim, recobertos pela larga batina, quando nos mostrava a origem da palavra <strong>asa<\/strong>&gt;<strong>ansa<\/strong>, nascida dos ru\u00eddos que as asas dos p\u00e1ssaros faziam ao iniciar seu voo.<\/p>\n<p>As palavras, ah! as palavras! Independentemente de sua origem etimol\u00f3gica, de seu significado ou das explica\u00e7\u00f5es fon\u00e9ticas que as justificam, despertam risos, sonhos, associa\u00e7\u00f5es. Nos sons, um universo.<\/p>\n<p>Os <strong>sons anasalados<\/strong> ronronam e prometem continuidade ou fecham-se sobre si mesmos. <strong>Tr\u00e2nsfuga<\/strong>, por exemplo: a t\u00f4nica inicial faz de <em>trans<\/em> o impulso do tobog\u00e3 em que deslizam as outras s\u00edlabas, ao passo que em <strong>camar<em>\u00f5es<\/em><\/strong> enrola-se como &#8230;um camar\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Palavras com muitos <strong>erres<\/strong> se aproximam do ritmo acelerado das m\u00e1quinas, ao passo que os <strong>esses<\/strong> as afastam da dureza do asfalto. <strong>Rascante<\/strong> se arrasta arranhando as papilas gustativas. <strong>Digress\u00e3o<\/strong> come\u00e7a doce, suave, sibila com os esses e se enrola no final.<\/p>\n<p><strong>Vestal<\/strong> corre mansa como a luz sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p><strong>Mir\u00edade<\/strong> lembra pirilampos escondidos entre as ramagens.<\/p>\n<p><strong>Derris\u00e3o<\/strong> se arrasta nos erres e se aprisiona no som nasal; liberdade de uns e humilha\u00e7\u00e3o de outros.<\/p>\n<p><strong>At\u00e1vico<\/strong>, a proparox\u00edtona que alonga perfura o ch\u00e3o e ali se imobiliza.<\/p>\n<p>Enquanto <strong>alm\u00f4ndega<\/strong> se arredonda em torno de si mesma, <strong>arremesso<\/strong> brinca de pingue-pongue sobre a l\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Quimera<\/strong> se dilui qual suspiro que se desmancha na boca do menino guloso.<\/p>\n<p>Ser acusado de<strong> digress\u00e3o <\/strong>parece coisa grave. Ser\u00e1 pelo mesmo radical de<strong> agredir?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Trespassa. <\/strong>Tantos <em>esses<\/em>, tanta perman\u00eancia! Pren\u00fancio de dor?<\/p>\n<p>Em<strong> imponder\u00e1vel, <\/strong>as vogais nasais se espregui\u00e7am, escorregam e acabam represadas na conten\u00e7\u00e3o que o <em>d\u00ea<\/em> oferece.<\/p>\n<p><strong>Obsoleto. <\/strong>Tantos <em>os<\/em>, tantos sons fechados lembram velhos s\u00f3t\u00e3os e seus ba\u00fas cobertos de poeira.<\/p>\n<p><strong>Estiolar: <\/strong>Enquanto a s\u00edlaba inicial promete dura\u00e7\u00e3o, os sons que a seguem estabelecem o corte e a nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando pronunciamos lentamente<strong> tripudiar <\/strong>podemos visualizar crian\u00e7as que pulam alegremente na cama el\u00e1stica do parquinho.<\/p>\n<p><strong>Pet\u00fanias: <\/strong>c\u00e1lices? cores? Uma certa afeta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Em <strong>lib\u00e9lula <\/strong>\u00e9 a l\u00edngua que esvoa\u00e7a na sucess\u00e3o dos <em>eles.<\/em><\/p>\n<p><strong>Estrovenga <\/strong>estala na boca como um bocado de bolacha salgada.<\/p>\n<p><strong>Obnubilado <\/strong>anuncia sem revelar? O que est\u00e1 a esconder?<\/p>\n<p><strong>Saudade<\/strong>, palavra t\u00e3o delicada que at\u00e9 a s\u00edlaba t\u00f4nica se faz pronunciar com leveza. Do\u00e7ura que abra\u00e7a e se esconde no sil\u00eancio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase posso ouvir o som dos bra\u00e7os de meu professor de Latim, recobertos pela larga batina, quando nos mostrava a origem da palavra asa&gt;ansa, nascida dos ru\u00eddos que as asas dos p\u00e1ssaros faziam ao iniciar seu voo. As palavras, ah! as palavras! 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