{"id":40,"date":"2018-08-07T04:29:15","date_gmt":"2018-08-07T07:29:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas2\/2018\/08\/07\/1-amor-amoris\/"},"modified":"2018-08-07T04:29:15","modified_gmt":"2018-08-07T07:29:15","slug":"1-amor-amoris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/1-amor-amoris\/","title":{"rendered":"1 . Amor\/amoris"},"content":{"rendered":"<p>Cada um de n\u00f3s guarda num cantinho da mem\u00f3ria a hist\u00f3ria de um ou v\u00e1rios amores que ficaram no passado.<\/p>\n<p>Assim como os jardins de nossa inf\u00e2ncia nos parecem de tamanho diminuto quando, adultos, os revisitamos, tamb\u00e9m os velhos amores nos assombram quando tirados de seu sono. A realidade substitui o sonho, os diferentes caminhos seguidos constroem outras verdades, e estas se mostram implac\u00e1veis na destrui\u00e7\u00e3o de nossas fantasias.<\/p>\n<p>Conheci uma senhora, bem casada (seja l\u00e1 o que isso possa significar), marido carinhoso, filhos adolescentes, a quem foi dada a not\u00edcia de que seu primeiro namorado, agora vi\u00favo, enfrentava grave doen\u00e7a. Alarmada com a situa\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o que um dia a fizera sonhar, preocupada com a possibilidade de ter ele que enfrentar sozinho o tratamento, a jovem senhora abandonou casa e fam\u00edlia, embalada por suas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Outra cidade, amigos distantes, sua refer\u00eancia era agora o amor que ela pensava reencontrar. Os anos, por\u00e9m, n\u00e3o haviam reconfigurado apenas os tra\u00e7os do homem que ela teimava procurar, mas tamb\u00e9m sua mente e seus valores \u2013 que em nada combinavam com a vis\u00e3o de mundo que agora norteava suas a\u00e7\u00f5es. Deixou-o, depois de algum tempo, despedindo-se de suas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Sozinha, acabou por adoecer gravemente na cidade desconhecida. Restavam-lhe apenas arrependimento e saudade. As noites mal dormidas eram povoadas da lembran\u00e7a do mundo que ela mesma escolhera abandonar.<\/p>\n<p>Num gesto incomum, no entanto, foi-lhe ao encontro e a acolheu afetuosamente, dando-lhe prote\u00e7\u00e3o, o marido que ficara para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o igualmente dolorosa viveram L\u00facia e Ant\u00f4nio: primos, juntos cresceram em uma pequena cidade do interior, juntos colheram frutas ainda verdes nas \u00e1rvores da vizinhan\u00e7a e as comeram escondidos, juntos riram das pe\u00e7as aplicadas nos irm\u00e3os, juntos choraram os joelhos ralados e os castigos recebidos.<\/p>\n<p>Adolescentes, descobriram que se amavam intensamente, sonharam e fizeram planos para o futuro. As situa\u00e7\u00f5es familiares, o tempo, a vida, acabaram por separ\u00e1-los: ela foi morar num grande centro, ele continuou na cidadezinha natal.<\/p>\n<p>Em suas diferentes realidades, viveram novos romances, cultivaram novos amores, exerceram suas atividades, responderam aos chamados que o mundo adulto imp\u00f5e a cada dia.<\/p>\n<p>Ela aprendeu a viver na grande metr\u00f3pole e a enfrentar seus desafios: refinou seus h\u00e1bitos, frequentou teatros e oficinas, aprendeu idiomas estrangeiros, habituou-se a restaurantes elegantes.<\/p>\n<p>Ele se tornou um homem forte, conduzia o gado, enfrentava tormentas. Membro conhecido na comunidade, participou dos campeonatos de bocha, frequentou os sal\u00f5es e as festas da igreja. Nas muitas viagens feitas a trabalho, dormiu nos hot\u00e9is de estrada e comeu nos restaurantes do caminho.<\/p>\n<p>O tempo passou e um dia eles se reencontraram: a paix\u00e3o voltou a pulsar, e eles quiseram ficar juntos. Essa decis\u00e3o s\u00f3 lhes trouxe sofrimentos: nada mais os unia, suas prefer\u00eancias, seus costumes, at\u00e9 seus gestos os afastavam. As pessoas que eles eram agora machucavam uma \u00e0 outra, e eles tiveram que se despedir. Sobraram a m\u00e1goa e a tristeza.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, teve um grande amor? Guarda uma doce lembran\u00e7a? Deixe quieto num canto do cora\u00e7\u00e3o. Essa lembran\u00e7a pode at\u00e9 dar for\u00e7a para continuar nos momentos dif\u00edceis, mas n\u00e3o deve ser tirada de onde deve ficar: l\u00e1 no passado, que \u00e9 o seu lugar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada um de n\u00f3s guarda num cantinho da mem\u00f3ria a hist\u00f3ria de um ou v\u00e1rios amores que ficaram no passado. Assim como os jardins de nossa inf\u00e2ncia nos parecem de tamanho diminuto quando, adultos, os revisitamos, tamb\u00e9m os velhos amores nos assombram quando tirados de seu sono. 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