{"id":36,"date":"2018-08-07T04:32:50","date_gmt":"2018-08-07T07:32:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas2\/2018\/08\/07\/3-as-vacas-de-lori\/"},"modified":"2018-08-07T04:32:50","modified_gmt":"2018-08-07T07:32:50","slug":"3-as-vacas-de-lori","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/3-as-vacas-de-lori\/","title":{"rendered":"3 . As vacas de Lori"},"content":{"rendered":"<p>A viagem seria longa. Horas de estrada. Acomodei-me em meu lugar ao lado da janela com a inten\u00e7\u00e3o de aproveitar o tempo e terminar a leitura iniciada pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Aproximou-se ent\u00e3o aquela figura, ao mesmo tempo doce e en\u00e9rgica, e sentou-se a meu lado. Permanecemos em sil\u00eancio enquanto o \u00f4nibus deixava a rodovi\u00e1ria e avan\u00e7ava em meio ao pesado tr\u00e2nsito de fim de tarde.<\/p>\n<p>Embora os rel\u00f3gios marcassem quase oito horas, o dia ainda teimava em segurar o sol. Os raios, agora enviesados, incidiam no vidro e repousavam sobre o rosto de minha companheira de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Perguntei-lhe se ela queria que eu fechasse a cortina, e ela respondeu-me sorrindo: \u201cJ\u00e1 vai passar. Isso \u00e9 resultado deste hor\u00e1rio de ver\u00e3o que deixa a gente louca: \u00e9 noite, mas n\u00e3o \u00e9 noite. At\u00e9 as minhas vacas est\u00e3o atrapalhadas, coitadinhas. Quando eu chamo para tirar leite pela manh\u00e3, elas v\u00eam bem devagar, com carinha de sono. Vejo que est\u00e3o confusas porque s\u00e3o cinco horas, mas ainda est\u00e1 escuro. Fazer o qu\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh! Voc\u00ea tem vacas?!\u201d, comentei.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9! S\u00f3 trabalho com leite. Fa\u00e7o coalhada, requeij\u00e3o, queijo&#8230; Vendo de tudo um pouco.\u201d<\/p>\n<p>Com express\u00e3o carinhosa, continuou: \u201cMinhas vacas s\u00e3o minhas amigas. Todas t\u00eam nome e respondem quando eu falo com elas. Elas sabem seus nomes e n\u00e3o se confundem. S\u00e3o onze vaquinhas: a Neve, a Malhada&#8230;\u201d e continuou a nomear suas amiguinhas.<\/p>\n<p>\u201cSou eu que fa\u00e7o os partos das minhas meninas. Cuido como filhas. Os terneiros machos ficam com meu irm\u00e3o; eu fico com as f\u00eameas.\u201d<\/p>\n<p>Passou a enumerar fatos e situa\u00e7\u00f5es de sua viv\u00eancia com os animais que ela tanto amava e que garantiam sua qualidade de vida: \u201cCriei meus quatro filhos s\u00f3 com o meu trabalho com o leite. Meu marido sempre diz que foram as vacas que garantiram a universidade dos meninos\u201d.<\/p>\n<p>Acabei aprendendo um bocado sobre cuidados com o gado, suas necessidades, sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. A empatia que ela desenvolvia com cada uma de suas vaquinhas tornava-as membros de sua j\u00e1 numerosa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por fim, entre curiosa e apreensiva, fiz-lhe a pergunta: \u201cE o que voc\u00ea faz quando elas ficam velhinhas?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh! isso n\u00e3o \u00e9 problema: eu vendo para o matadouro de um amigo nosso!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viagem seria longa. Horas de estrada. Acomodei-me em meu lugar ao lado da janela com a inten\u00e7\u00e3o de aproveitar o tempo e terminar a leitura iniciada pela manh\u00e3. Aproximou-se ent\u00e3o aquela figura, ao mesmo tempo doce e en\u00e9rgica, e sentou-se a meu lado. 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