{"id":30,"date":"2018-08-08T04:42:31","date_gmt":"2018-08-08T07:42:31","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas2\/2018\/08\/08\/6-verao\/"},"modified":"2018-08-08T04:42:31","modified_gmt":"2018-08-08T07:42:31","slug":"6-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/6-verao\/","title":{"rendered":"6 . Ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Sol de ver\u00e3o. Quarenta graus \u00e0 sombra. O calor da tarde reverberava nas telhas de amianto. O bafo, denso, pesado, subia das pedras escaldantes. Qual trepadeira indomada, o ar quente envolvia os corpos, roubando-lhes as for\u00e7as. A atmosfera matava sua sede com a umidade dos corpos.<\/p>\n<p>Nada parecia resistir ao calor que tudo envolvia. As coisas todas permaneciam hipnotizadas, paradas no tempo, aguardando um sopro de brisa que viesse despert\u00e1-las. Narinas dilatadas, os passantes inalavam o ar aquecido. O cansa\u00e7o se fazia maior.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nas ruas mais distantes, o p\u00f3 do ch\u00e3o se misturava aos res\u00edduos e criava uma densa camada de poeira que tudo escurecia. A mesma cor indefinida revestia portas, janelas, toldos, telhados e comprometia as roupas penduradas nos varais. Nos p\u00e1tios, a aus\u00eancia dos gritos a acompanhar o rolar das bolas e o soar dos passos das crian\u00e7as provocava estranhamento. Ondas tr\u00eamulas sa\u00eddas do asfalto criavam a expectativa de aparecer ali um o\u00e1sis a ofertar acolhimento e \u00e1gua fresca.<\/p>\n<p>Somente as \u00e1rvores mais frondosas mantinham seu verde carregado; as mais fr\u00e1geis deixavam tombar precocemente as flores e as folhas emurchecidas. Jardins substitu\u00edam o perfume das flores pelo odor das hastes ressequidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse o movimento dos carros \u2013 vidros fechados aprisionando o conforto interno do ar condicionado \u2013 a cidade pareceria morta. Pessoas e animais recolhiam-se \u00e0s sombras na busca in\u00fatil de algum conforto. Exce\u00e7\u00e3o apenas aos aposentados, que, remetidos \u00e0 inf\u00e2ncia em suas inesperadas bermudas, dedicavam-se a conversas sobre a vida alheia ou a infind\u00e1veis partidas de domin\u00f3, agrupados nas sombras poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Entorpecida, no meio da sala, eu n\u00e3o sabia exatamente aonde ir, tudo ali se mostrava sem vida. As plantas ao meu redor, de apar\u00eancia murcha e triste, acentuavam a impress\u00e3o de abandono. As rosas trazidas da floricultura, t\u00e3o coloridas na v\u00e9spera, agora sem vi\u00e7o, despetalavam. De pouco servira a \u00e1gua colocada nos vasos que abrigavam as folhagens verdes. Parecia, ao contr\u00e1rio, que a umidade as cozinhara lentamente.<\/p>\n<p>Alguma coisa, no entanto, no ambiente da sala, escapava a minha compreens\u00e3o; alguma coisa apenas sentida e ainda n\u00e3o explicada. Aproximando-me do balc\u00e3o em que repousava um arranjo de flores de cetim e pl\u00e1stico, encontrei a resposta que procurava: dobradas sobre si mesmas, as flores encurvavam-se amolecidas e tortas em suas hastes. O calor as destru\u00edra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sol de ver\u00e3o. Quarenta graus \u00e0 sombra. O calor da tarde reverberava nas telhas de amianto. O bafo, denso, pesado, subia das pedras escaldantes. Qual trepadeira indomada, o ar quente envolvia os corpos, roubando-lhes as for\u00e7as. A atmosfera matava sua sede com a umidade dos corpos. Nada parecia resistir ao calor que tudo envolvia. 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