{"id":28,"date":"2018-08-08T04:43:51","date_gmt":"2018-08-08T07:43:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas2\/2018\/08\/08\/7-no-transito\/"},"modified":"2018-08-08T04:43:51","modified_gmt":"2018-08-08T07:43:51","slug":"7-no-transito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/7-no-transito\/","title":{"rendered":"7 . No tr\u00e2nsito"},"content":{"rendered":"<p>No tr\u00e2nsito, os indiv\u00edduos n\u00e3o s\u00f3 seguem diferentes rotas como tamb\u00e9m se deixam conduzir por valores e comportamentos incomuns. N\u00e3o, n\u00e3o estou falando das exig\u00eancias das leis que ordenam o vai e vem nas cidades e rodovias, falo dos instintos primitivos que afloram quando um motorista se acomoda no banco de seu carro: um novo ser passa a determinar marchas, velocidade, dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muda tamb\u00e9m o vocabul\u00e1rio normalmente usado pelo motorista quando n\u00e3o est\u00e1 sobre as quatro rodas. Tenho tido oportunidades v\u00e1rias de conhecer o novo emprego de palavras antigas.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Estava eu outro dia indo na dire\u00e7\u00e3o bairro-centro pela Avenida Beira-Mar. Como a convers\u00e3o para as ruas que atravessam a cidade ali se faz pela esquerda, precisei me manter nesse lado da via, sinalizar e reduzir um pouco no momento de adentrar na rua desejada. Enquanto me posicionava, ouvia do motorista que me seguia: \u201cVaca! Vaca!\u201d. N\u00e3o sei se ele me xingava ou me alertava para a presen\u00e7a de um animal \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, ao sair de uma principal para uma secund\u00e1ria, dei de frente com uma ca\u00e7amba coletora e precisei desviar para a esquerda. Um senhor de meia-idade, que despontava de uma servid\u00e3o, jogou a cabe\u00e7a para fora enquanto me dirigia aos berros uma frase para mim impublic\u00e1vel. Parados ambos no sem\u00e1foro logo \u00e0 frente, abri a janela e lhe lancei o mais simp\u00e1tico sorriso em agradecimento.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culo \u00e0 frente tem-me rendido situa\u00e7\u00f5es peculiares. Voltando do continente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ponte, vi-me subitamente engolida por um n\u00famero incont\u00e1vel de carros que deixavam o est\u00e1dio comemorando a vit\u00f3ria de seu time. Reduzi rapidamente para me adequar a sua velocidade. O mesmo n\u00e3o fez o jovem que me seguia: bateu com tal for\u00e7a que seu carro ficou preso na traseira do meu. Ali ficamos a olhar os torcedores que se distanciavam. Voltando-se para mim, o parceiro do acidente disse-me apenas: \u201cQuem mandou reduzir? Eu n\u00e3o estava esperando.\u201d. \u201cPois \u00e9, nem eu, mas eu estava prestando aten\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Teve um epis\u00f3dio esquisito num dia em que estacionei em frente \u00e0 padaria para comprar o jantar da fam\u00edlia. T\u00e3o logo desliguei a chave e pus o p\u00e9 no ch\u00e3o, senti uma batida acompanhada de um grande estrondo que sacudiu at\u00e9 o espa\u00e7o em que eu pisava. Voltei-me e vi dois jovens saindo do ve\u00edculo que ocupava agora o meu bagageiro: \u201cDesculpe, Dona; a gente estava sem freios e assustados, n\u00e9?, da\u00ed escolhemos bater no seu carro para poder parar.\u201d \u201cComo???\u201d. O carro era roubado e nunca mais vi os meninos, que por nada puderam ser responsabilizados, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Doutra feita, fui at\u00e9 a casa de materiais de constru\u00e7\u00e3o fazer algumas compras. Feitas as escolhas, pediu-me o atendente que manobrasse o carro \u2013 que estava na parte da frente do p\u00e1tio \u2013 at\u00e9 o fundo para facilitar a coloca\u00e7\u00e3o dos sacos do material que eu adquirira. Enquanto dirigia o carro naquela dire\u00e7\u00e3o, cortou-me subitamente a frente um ve\u00edculo em velocidade, vindo do outro lado da rua, que estacionou no lugar a mim destinado. Precisei frear bruscamente e, quando olhei surpresa para o motorista, ele me atalhou em tom de mando: \u201cA preferencial era minha!\u201d \u201cO qu\u00ea???\u201d<\/p>\n<p>Gr\u00e1vida, acabei numa grande fila numa rua central. Para meu desconforto, a fila dobrava uma esquina e fui eu quem ficou com o carro ali parado. Os motoristas que vinham atr\u00e1s de mim, irritados, buzinavam sem parar, e, na frente, nada se resolvia. Cansada com o buzina\u00e7o, sa\u00ed do carro, barriga imensa saindo na frente, fui at\u00e9 a janela de meu primeiro vizinho de estrada \u2013 um enorme caminh\u00e3o de carga \u2013 e lhe perguntei suavemente: \u201cVoc\u00ea quer que eu voe, querido? Quando liberarem minha frente, eu passo. Combinado?\u201d. As buzinas calaram: m\u00e3es ainda s\u00e3o respeitadas.<\/p>\n<p>Subindo uma rua com acentuada inclina\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o a movimentada cl\u00ednica, carros estacionados em ambos os lados, percebi um motorista tentando descer e n\u00e3o encontrando espa\u00e7o para isso. Procurei a primeira entrada de garagem e torci a dire\u00e7\u00e3o um tanto para a direita para que ele pudesse passar. Logo ap\u00f3s meu movimento, dois carros que iniciavam a subida atr\u00e1s de mim foram acelerados com for\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao topo e o jovem que procurava a descida l\u00e1 ficou at\u00e9 tudo se acomodar.<\/p>\n<p>Houve um dia emblem\u00e1tico: passava eu por uma estreita rua secund\u00e1ria entre duas preferenciais. Carros estacionados dos dois lados da via. A minha frente uma grande caminhonete, moderna e elegante. Inesperadamente, o motorista atravessou seu carro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cal\u00e7ada \u00e0 direita e recuou obrigando-me a parar. Percebendo que ele estava manobrando para retornar, posicionei-me mais \u00e0 esquerda esperando que ele completasse a manobra e fizesse o retorno.<\/p>\n<p>Contrariando minha l\u00f3gica, terminado o movimento de volta, deu uma longa r\u00e9 e, avan\u00e7ando, posicionou-se em minha frente. Fiz-lhe sinal que \u201ctudo bem, podia passar; eu aguardaria para retomar a minha m\u00e3o\u201d. Pondo a cabe\u00e7a para fora da janela, olhos esbugalhados, vermelho de \u00f3dio, o homem come\u00e7ou a gritar: \u201cSaia da minha frente! Voc\u00ea n\u00e3o conhece as leis do tr\u00e2nsito? Voc\u00ea est\u00e1 obstruindo minha passagem.\u201d Em seguida, agarrou-se ao celular e freneticamente ficou a bater in\u00fameras fotos de mim e de meu carro enquanto gritava: \u201cEstou ligando para a pol\u00edcia. Voc\u00ea precisa aprender a obedecer a lei e a respeitar os outros\u201d.<\/p>\n<p>Tentei argumentar sorrindo: \u201cMas, meu querido&#8230;\u201d. \u201cAh!, n\u00e3o! Querido n\u00e3o, n\u00e3o ouse&#8230;\u201d. Logo vi que n\u00e3o era nativo: os florianopolitanos todos se <em>quiridam<\/em>, como diz o professor J\u00falio de Queiroz. Sentindo a inutilidade de qualquer gesto ou argumento e sem entender o que ali acontecera, arranquei e sa\u00ed pela direita.<\/p>\n<p>Gentileza no tr\u00e2nsito? Nunca mais!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No tr\u00e2nsito, os indiv\u00edduos n\u00e3o s\u00f3 seguem diferentes rotas como tamb\u00e9m se deixam conduzir por valores e comportamentos incomuns. N\u00e3o, n\u00e3o estou falando das exig\u00eancias das leis que ordenam o vai e vem nas cidades e rodovias, falo dos instintos primitivos que afloram quando um motorista se acomoda no banco de seu carro: um novo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":29,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-28","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}