{"id":167,"date":"2021-03-03T16:06:34","date_gmt":"2021-03-03T19:06:34","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=167"},"modified":"2021-03-03T16:06:39","modified_gmt":"2021-03-03T19:06:39","slug":"21-arrumando-o-guarda-roupa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/21-arrumando-o-guarda-roupa\/","title":{"rendered":"21. Arrumando o guarda-roupa"},"content":{"rendered":"<p>T\u00edmidas, ousadas, arrogantes, elas, as roupas, foram saindo de seus esconderijos, algumas ali esquecidas h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p>Hoje vou fazer a sele\u00e7\u00e3o. <em>As coisas precisam girar<\/em>, \u00e9 o que todos dizem. <em>N\u00e3o se guarda aquilo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u00fatil.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Meu Deus, como \u00e9 que eu tive coragem de comprar, de comprar, n\u00e3o, de usar uma coisa dessas?!, espantava-me com frequ\u00eancia. Logo em seguida, comovia-me e tocava com ternura esta e aquela pe\u00e7a. Tocando-as, sentia voltarem as pessoas, os momentos, os perfumes.<\/p>\n<p><em>Esta saia foi um dos meus meninos que me deu com seu primeiro sal\u00e1rio<\/em>. Usei tanto. Gosto dela.<\/p>\n<p><em>Minha blusa vermelha de cashmere<\/em>! <em>Indispens\u00e1vel.<\/em> Foi minha m\u00e3e que me mandou quando eu era estudante e morava num pensionato. \u00c9 a blusa mais quentinha que eu tive na vida. Ela sempre mandava pacotes com roupas e comidas. Lembro-me daquele ano em que todas as meninas do pensionato iam a uma formatura e a \u00fanica que n\u00e3o tinha roupa para ir era eu. Num milagre que at\u00e9 hoje n\u00e3o explico, no dia da formatura chegou um pacote com o vestido mais bonito que eu poderia imaginar. Senti-me a pr\u00f3pria cinderela&#8230; e l\u00e1 fui eu para o baile, sem ab\u00f3bora, mas com a prote\u00e7\u00e3o de uma madrinha que ningu\u00e9m conhecia. Sei que trabalhava pesado para isso&#8230; as comidas ela tomava emprestadas da despensa de minha irm\u00e3. Ela sempre fez assim: o irm\u00e3o mais abastado ajudava o outro, tivesse ou n\u00e3o conhecimento disso.<\/p>\n<p><em>A saia nesgada de jeans desbotado espia em meio \u00e0s cal\u00e7as penduradas.<\/em> Ah! Meus jeans: saias longas, curtas, cal\u00e7as largas, justas, camisas, bolsas&#8230; Minhas colegas me chamavam de \u201ca mo\u00e7a dos jeans\u201d. A tal da saia nesgada chegou a provocar uma pergunta espantada: <em>Voc\u00ea n\u00e3o tem vergonha de usar essas roupas?<\/em> (Talvez me achasse meio hippie.) Mas como ser elegante com tr\u00eas turnos de trabalho e uma maravilhosa fam\u00edlia com que conviver \u2013 marido, cinco filhos, gatos, plantas \u2013 todos com seus chamados e suas necessidades? Os jeans resolviam tudo, mesmo quando eu sa\u00eda do parquinho de areia em que brincava com meus filhos direto para a escola. Jeans servem mesmo para tudo.<\/p>\n<p>Problemas com roupas e cal\u00e7ados sempre me assombravam. Teve um dia em que, ao me arrumar para ir ao cursinho, percebi que meus sapatos estavam todos estragados. Telefonei para meu marido, que j\u00e1 estava em seu trabalho, e pedi que comprasse um par de sapatos e me esperasse na esquina mais pr\u00f3xima. Ali cheguei, de t\u00e1xi e descal\u00e7a, coloquei os sapatos e sa\u00ed correndo para a sala de aula.<\/p>\n<p><em>C\u00e9us, quantos casacos! Muito quentes!<\/em> Acho que a cidade j\u00e1 teve dias mais gelados. Lembro-me de us\u00e1-los, embrulhada em cachec\u00f3is. Est\u00e3o novinhos&#8230; Vamos esperar os pr\u00f3ximos invernos.<\/p>\n<p><em>Aqui est\u00e3o as blusas!<\/em> Minhas blusas queridas, quase todas presentes dos meninos. Cada uma tem um motivo, um momento.<\/p>\n<p><em>Chemise<\/em> <em>de mangas longas?!<\/em> Deve ter mais de dez anos&#8230; Mas est\u00e1 novinho&#8230; e \u00e9 sempre \u00fatil. Este outro tem o comprimento certo.<\/p>\n<p><em>Aqui est\u00e1 a cal\u00e7a listradinha.<\/em> Comprei na Provence&#8230; Chique, n\u00e3o?! N\u00e3o. Est\u00e1vamos almo\u00e7ando num restaurante de uma vila medieval. Nicholas, com febre, resolveu deitar-se no colo da m\u00e3e. No caminho para seu socorro, esbarrou em um dos copos de suco de laranja que virou em cima de mim. O suco molhou minha roupa, meus cal\u00e7ados e escorreu para o ch\u00e3o. Diferentemente dos costumes brasileiros, ningu\u00e9m deu a m\u00ednima; nenhum gar\u00e7om prestou qualquer ajuda. Antes de sairmos, ao pagar a conta, meu genro pediu desculpas ao atendente.\u00a0 Sa\u00edmos ent\u00e3o em busca de socorro. Numa feira de rua, encontrei a cal\u00e7a listradinha, lavei os sapatos num chafariz e troquei de roupa numa loja pr\u00f3xima.<\/p>\n<p><em>E este vestido ainda na embalagem?<\/em> Recordo agora: \u00edamos ser padrinhos de casamento e, na v\u00e9spera, um grande imprevisto, quinze dias de UTI, idas e vindas aos m\u00e9dicos. Tudo passou, e o vestido ficou no cabide como viera da loja. Novinho&#8230; algu\u00e9m ainda pode usar, outros casamentos vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhando com carinho as pe\u00e7as organizadas nos var\u00f5es e prateleiras, entendi por que n\u00e3o me desfizera de nenhuma daquelas pe\u00e7as: elas ainda guardavam hist\u00f3rias, sentimentos. Meu guarda-roupa \u00e9 minha lata de bolachas onde protejo minas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fechei o guarda-roupa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00edmidas, ousadas, arrogantes, elas, as roupas, foram saindo de seus esconderijos, algumas ali esquecidas h\u00e1 muitos anos. Hoje vou fazer a sele\u00e7\u00e3o. As coisas precisam girar, \u00e9 o que todos dizem. N\u00e3o se guarda aquilo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u00fatil.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":168,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,3],"tags":[],"class_list":["post-167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas","category-teceduras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=167"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/167\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":169,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/167\/revisions\/169"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=167"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=167"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}