{"id":151,"date":"2019-05-09T16:01:52","date_gmt":"2019-05-09T19:01:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=151"},"modified":"2019-05-09T16:05:32","modified_gmt":"2019-05-09T19:05:32","slug":"19-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/19-medo\/","title":{"rendered":"19. Medo?"},"content":{"rendered":"<p>\u201cMedo? Eu? Est\u00e1s brincando!\u201d<br \/>\n\u201cComo posso ter medo de fantasmas, se n\u00e3o acredito em c\u00e9u, inferno,<br \/>\neternidade? Al\u00e9m do mais, o medo \u00e9 produto de nossa mente supersticiosa.<br \/>\nPreferimos acreditar no m\u00e1gico e n\u00e3o no real.\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o, querida, tenho medo \u00e9 dos vivos, que s\u00e3o trai\u00e7oeiros.\u201d<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em meu \u00faltimo anivers\u00e1rio, recebi de meu marido um buqu\u00ea de rosas<br \/>\nvermelhas. Encantada com o gesto e com a beleza das rosas, resolvi mant\u00ea-<br \/>\nlas na decora\u00e7\u00e3o da sala. Com cuidado, deixei-as secar. Depois, com<br \/>\ndetalhes de capim e de trigo, teci um delicado arranjo. Completei o trabalho<br \/>\ncom alguns tons de metal velho esparzidos um tanto ao acaso sobre as<br \/>\np\u00e9talas.<\/p>\n<p>Ao calor da tarde, sucedia uma noite abafada sacudida por raios e trov\u00f5es.<br \/>\nA ilumina\u00e7\u00e3o da casa era interrompida a cada passo, num vai e vem<br \/>\nirritante e sem solu\u00e7\u00e3o imediata.<br \/>\nAcomodei-me sentada no escuro da sala.<br \/>\nA luz do corredor incidia no tampo do balc\u00e3o e nas flores que h\u00e1 semanas<br \/>\neu ali colocara. A irregularidade da luz criava a ilus\u00e3o de movimentarem-se<br \/>\nos objetos. O arranjo que eu tecera parecia assumir outra natureza: as rosas<br \/>\ndesidratadas me olhavam como corpos a que n\u00e3o se deu sepultura, m\u00famias<br \/>\nprontas a adquirir vida e, num ritual macabro, come\u00e7ar a andar pela sala<br \/>\npara retomar o vi\u00e7o que lhes fora roubado.<\/p>\n<p>Um arrepio subiu-me pelas costas, desviei os olhos. Voltei a olhar, a<br \/>\nimpress\u00e3o se intensificando.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, a chuva amainou e a energia el\u00e9trica tornou-se<br \/>\nest\u00e1vel. Pareceu-me, ent\u00e3o, ver uma boca sorridente que sa\u00eda do buqu\u00ea e<br \/>\ndan\u00e7ava com o reflexo luminoso. Lentamente fui at\u00e9 o balc\u00e3o e fixei meu<br \/>\nolhar nas flores agora im\u00f3veis. Tudo estava como sempre. Mesmo assim&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo assim, com cuidado, peguei as flores secas com a ponta dos dedos e<br \/>\nfui enterr\u00e1-las no fundo do quintal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMedo? Eu? Est\u00e1s brincando!\u201d \u201cComo posso ter medo de fantasmas, se n\u00e3o acredito em c\u00e9u, inferno, eternidade? Al\u00e9m do mais, o medo \u00e9 produto de nossa mente supersticiosa. Preferimos acreditar no m\u00e1gico e n\u00e3o no real.\u201d \u201cN\u00e3o, querida, tenho medo \u00e9 dos vivos, que s\u00e3o trai\u00e7oeiros.\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":152,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-151","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":157,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions\/157"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}