{"id":147,"date":"2019-04-24T15:24:05","date_gmt":"2019-04-24T18:24:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=147"},"modified":"2019-04-24T15:40:29","modified_gmt":"2019-04-24T18:40:29","slug":"18-a-casa-de-minha-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/18-a-casa-de-minha-infancia\/","title":{"rendered":"18. A casa de minha inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>Durante horas ando e desando pelas ruas ora vazias ora ocupadas por passantes. Apressadas todas em seu cotidiano, nenhuma das pessoas com quem cruzo sequer desvia o olhar.<\/p>\n<p>Essa aparente indiferen\u00e7a n\u00e3o me surpreende: h\u00e1 muito abandonei a cidade a que agora retorno em breve passagem \u2013 coisa de reencontro comigo mesma, com minha inf\u00e2ncia, com meus afetos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A cidade ficou em mim, impregnada em minha saudade. Por d\u00e9cadas, com ela sonhei todas as noites. No torpor dos sonhos, andei por suas ruas, vi erguerem-se pr\u00e9dios desconhecidos. Perambulei como son\u00e2mbula por espa\u00e7os cujas mudan\u00e7as estranhamente podia acompanhar. Subi escadas e descortinei ambientes novos, alguns ainda em execu\u00e7\u00e3o. Procurei nas cal\u00e7adas e nas esquinas um rosto conhecido, uma voz familiar. Mas esse passeio noturno era s\u00f3 meu, eu e a cidade, num abra\u00e7o silencioso, eu l\u00e1 estando sem de fato estar.<\/p>\n<p>As paredes de amarelo fosco acentuado pelo luar atra\u00edam meus passos. Tantas vezes subi a escada sorvendo o ar em que reencontrava a vida. Detinha-me em cada lance da escadaria a espalhar ao redor a minha busca. Ali estavam as flores que sempre voltei a procurar em meu imagin\u00e1rio: vadeando a vala que conduzia a \u00e1gua da chuva, a longa fila de copos-de-leite; do outro lado do terreno, acompanhando a cerca, sucessivas toiceiras de margaridas com a luz refletida em suas p\u00e9talas brancas; as g\u00e9rberas, num canto mais protegido, florescendo com for\u00e7a \u2013 \u201cS\u00f3 gosto de g\u00e9rberas e de margaridas, dona Maria, o resto \u00e9 perda de tempo.\u201d \u2013; as muitas roseiras sobressaindo a tudo; as beg\u00f4nias balou\u00e7ando no espa\u00e7o deixado pela escada que levava \u00e0 casa; as pequeninas verbenas, tapetes de cores unindo os canteiros e ocupando os espa\u00e7os vazios \u2013 aqui nos det\u00ednhamos todas as tardes, ap\u00f3s o almo\u00e7o, a falar de nossos sonhos e preocupa\u00e7\u00f5es \u2013 os dedos \u00e1geis de minha m\u00e3e interferindo aqui e ali para salvar alguma de suas flores de amea\u00e7as que s\u00f3 ela sabia descobrir \u2013 \u201cVoc\u00eas n\u00e3o v\u00eam tomar o cafezinho, n\u00e3o? &#8230; mania de flores&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Com cuidado, vencia os degraus e chegava \u00e0 varanda \u2013 abra\u00e7o carinhoso pensado para receber quem ali chegava. Abrindo a porta para a sala de visitas, sem ru\u00eddo, em meu devaneio encontrava meu quarto.<\/p>\n<p>Mesmo acordada, nas noites vazias de sono, imaginava-me no port\u00e3o da varandinha a esgueirar-me at\u00e9 meu quarto \u2013 sem que o notassem os eventuais moradores \u2013 para ali adormecer. O cheiro das vergamotas no quintal do vizinho e o barulho distante da cidade no outro lado do rio embalavam meu sonho com tal intensidade que cheguei a acreditar que l\u00e1 estivera muitas vezes.<\/p>\n<p>Intensa, nesses momentos, a presen\u00e7a de minha m\u00e3e. Voltava ainda mais no tempo; imaginava as minhas Marias combinando os afazeres do dia \u2013 chegava at\u00e9 mim o cheiro intenso do caf\u00e9 que impregnava nosso despertar; ouvia a voz de meu pai a acalmar meus receios. A casa de novo se enchia da vida que passou; eu de novo crian\u00e7a, sacudindo minhas tran\u00e7as, segura, num ambiente s\u00f3 meu.<\/p>\n<p>Caminho lentamente pelas ruas que j\u00e1 n\u00e3o me reconhecem; afago os muros, tateio as paredes, sinto os cheiros.<\/p>\n<p>Tomada pela surpresa, encontro erguidas as constru\u00e7\u00f5es que acompanhei em sonhos; descubro nas portas abertas as escadas que conduzem aos segundos pisos vislumbrados na luz opaca que me fascinou noites seguidas.<\/p>\n<p>Acompanhando a faixa de terra mergulhada em dire\u00e7\u00e3o ao encontro dos rios, esbarro nas casas novas, cujas fachadas n\u00e3o me surpreendem: eu as sabia ali, como sabia o lugar do novo Correio, a diferente situa\u00e7\u00e3o da escola b\u00e1sica, a perman\u00eancia do mercadinho.<\/p>\n<p>O perfume das laranjeiras floridas margeando a rua que, de minha casa, levava ao col\u00e9gio das freiras intensifica a saudade.<\/p>\n<p>Ali est\u00e1 ela, a minha casa. Desligada de todo o resto, parada no meio da rua, fico a olh\u00e1-la: a mesma cor nas paredes, a mesma escada de acesso, o mesmo port\u00e3ozinho a dar entrada \u00e0 varanda. Penso em subir os degraus que tantas vezes desci aos saltos, bater \u00e0 porta e pedir para v\u00ea-la: \u201cEu cresci aqui &#8230; Posso entrar? Queria ver o caramanch\u00e3o da cozinha, as amoras, as avencas que saltam do muro detr\u00e1s da casa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho coragem. Fico ali, simplesmente olhando. Quanto tempo? N\u00e3o sei&#8230; O que marca o tempo?<\/p>\n<p>Antes de me afastar, desvio mais uma vez meu olhar para a janela do quarto de meus pais. Debru\u00e7ada no parapeito, uma menina de tran\u00e7as, c\u00famplice, sorri para mim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante horas ando e desando pelas ruas ora vazias ora ocupadas por passantes. Apressadas todas em seu cotidiano, nenhuma das pessoas com quem cruzo sequer desvia o olhar. 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