{"id":133,"date":"2019-03-14T15:01:58","date_gmt":"2019-03-14T18:01:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=133"},"modified":"2019-03-14T15:14:38","modified_gmt":"2019-03-14T18:14:38","slug":"16-nasce-uma-estrela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/16-nasce-uma-estrela\/","title":{"rendered":"16. Nasce uma estrela"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Frio de rodovi\u00e1ria. A noite impregnada de cheiros e emo\u00e7\u00f5es. O\u00a0vento sacudia os galhos floridos das laranjeiras e esparzia seu incenso na\u00a0limpidez da noite. Embora o calend\u00e1rio apontasse para o final do inverno, o\u00a0brilho intenso das estrelas prometia geada ao amanhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os passageiros j\u00e1 acomodados nos bancos do \u00f4nibus aconchegavam-se quanto poss\u00edvel em mantas e cobertores. Fechei melhor meu casaco e\u00a0aproximei o cachecol do rosto, protegendo a boca e o nariz.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na plataforma de embarque, apressados retardat\u00e1rios e o grupo que n\u00e3o mostrava inten\u00e7\u00e3o de se desfazer. Grossos blus\u00f5es de l\u00e3, gorros, cal\u00e7as\u00a0jeans e t\u00eanis denunciavam-lhes a idade e a despreocupa\u00e7\u00e3o. No meio das\u00a0vozes adolescentes, excitadas, sobressa\u00eda vez ou outra uma fala adulta:\u00a0\u201cCuide da sa\u00fade.\u201d \u201cN\u00e3o deixe de dar not\u00edcias.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Instantes antes de ser anunciada a sa\u00edda, em tom de expectativa,\u00a0embargada, quase em sussurro, mas com for\u00e7a para se destacar aos coment\u00e1rios e recomenda\u00e7\u00f5es, fez-se ouvir a pergunta direcionada \u00e0 m\u00e3e:\u00a0\u201cVoc\u00ea acha que estou fazendo certo?\u201d \u201cSer\u00e1 isto mesmo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sabia que ia deixar para tr\u00e1s tudo o que conhecera at\u00e9 ent\u00e3o, que se\u00a0despedia de si mesma, da menina que fora. O sonho acalentado, os projetos\u00a0cultivados poderiam agora virar realidade. O mundo que a esperava parecia\u00a0crescer a sua frente e amea\u00e7ar engoli-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vontade de ficar? Medo? M\u00e3os estendidas em busca de alguma\u00a0solidez que lhe servisse de guia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A resposta veio calma: \u201cEst\u00e1s, sim, filha. Pode ser o teu futuro.\u201d\u00a0\u201cDepois &#8230; n\u00f3s estamos todos aqui. Deixa te dar o meu beijo. Boa viagem.\u00a0Avisa quando chegar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A esse sinal, os amigos, em vis\u00edvel agita\u00e7\u00e3o, sucederam-se em\u00a0despedidas, bons votos, recados: \u201cN\u00e3o nos esque\u00e7a.\u201d \u201cJ\u00e1 estou com\u00a0saudade.\u201d \u201cDespachei os pacotes. Tuas malas est\u00e3o todas atr\u00e1s, no lado\u00a0esquerdo. Os t\u00edquetes est\u00e3o aqui.\u201d \u201c N\u00e3o quero chorar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Destacando-se pela primeira vez do grupo, com os olhos presos\u00a0ainda aos que estavam na plataforma, ela subiu os degraus e entrou no\u00a0\u00f4nibus: um delicado rosto de menina que a maquiagem n\u00e3o conseguia\u00a0alterar somava-se ao corpo \u00e1gil, alto e delgado cujos movimentos suaves\u00a0completavam a do\u00e7ura do olhar.<\/p>\n<p>Diferentemente dos demais passageiros, em roupas simples e\u00a0despretensiosas, vestia um elegante conjunto de l\u00e3 em harmonia com\u00a0delicadas botinhas de salto e bico fino. Os amigos espremiam-se junto \u00e0\u00a0janela para acompanh\u00e1-la at\u00e9 o \u00faltimo minuto. O que estaria codificado em\u00a0cada semblante? Adeus? Quero ir contigo? N\u00e3o nos deixes? Inveja?<br \/>\nSolidariedade?<\/p>\n<p>Um imenso le\u00e3ozinho apertado contra o peito tra\u00eda a apar\u00eancia adulta\u00a0que a determina\u00e7\u00e3o impunha \u00e0 garota. Alcan\u00e7ando o assento que lhe cabia,\u00a0ela acenou para os que ficavam e acomodou a bolsa no porta-bagagem.<br \/>\nApagadas as luzes, o \u00f4nibus tomou a estrada. Pouco a pouco, os\u00a0passageiros se entregaram ao sono. A menina se deixou ficar&#8230; quieta,\u00a0enroscada em sua poltrona, com seu bicho de pel\u00facia ao colo, numa\u00a0cumplicidade estabelecida pelo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O som da campainha assustou os rostos amassados anunciando que o dia amanhecia e a viagem chegava a seu termo.<\/p>\n<p>Na entrada da cidade, os jardins das casas rasas emendavam-se com\u00a0pr\u00e9dios de pouca altura. Aqui e ali, apagavam-se as luzes das ruas e\u00a0caminhavam trabalhadores prontos para o dia que come\u00e7ava.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus parou. O motorista, sol\u00edcito, desembarcou e demorou-se a\u00a0ajeitar as muitas malas e pacotes da mocinha que ali ficava. No muro, o\u00a0le\u00e3ozinho aguardava.<\/p>\n<p>Com o ve\u00edculo novamente em movimento, deixamos de ver nossa\u00a0companheira de jornada, encoberta agora pelos ramos e vagens de uma\u00a0c\u00e1ssia de que o frio da esta\u00e7\u00e3o arrancara as folhas. O c\u00e9u se coloria com a\u00a0presen\u00e7a do sol. O vento balou\u00e7ava os galhos desnudos. Como sinos da\u00a0felicidade, faiscavam as favas de ouro velho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frio de rodovi\u00e1ria. A noite impregnada de cheiros e emo\u00e7\u00f5es. O\u00a0vento sacudia os galhos floridos das laranjeiras e esparzia seu incenso na\u00a0limpidez da noite. Embora o calend\u00e1rio apontasse para o final do inverno, o\u00a0brilho intenso das estrelas prometia geada ao amanhecer. 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