{"id":122,"date":"2019-02-25T10:55:53","date_gmt":"2019-02-25T13:55:53","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=122"},"modified":"2019-02-26T17:57:12","modified_gmt":"2019-02-26T20:57:12","slug":"15-a-mae-desnecessaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/15-a-mae-desnecessaria\/","title":{"rendered":"15. A m\u00e3e desnecess\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cA boa m\u00e3e \u00e9 aquela que vai se tornando<br \/>\n<\/em><em> desnecess\u00e1ria com o passar do tempo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Mam\u00e3e, vou morar com a Angelina. J\u00e1 alugamos uma casa e estamos nos organizando.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A not\u00edcia surpreende. Ontem ainda o filho pedira para voc\u00ea ir com ele ao laborat\u00f3rio (desde pequeno, laborat\u00f3rios o assustavam), e agora, vai mudar de casa!?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Minha querida, voc\u00ea n\u00e3o notou, mas ele h\u00e1 tempos abandonou o ninho. Agora s\u00f3 completa a sa\u00edda f\u00edsica. Lembra-se daquele anivers\u00e1rio em que ele avisou \u00e0 fam\u00edlia que ia comemorar com os amigos? E daquele Natal em que ele foi para a casa da m\u00e3e da namorada do irm\u00e3o do vizinho, dizendo ser mais divertido do que passar com a fam\u00edlia? E de quando voc\u00ea fez cinquenta anos e todos os amigos vieram para comemorar? Onde ele estava? Numa pousada com os colegas da Faculdade saudando a primavera. Minha amiga, ele saiu h\u00e1 muito tempo: voc\u00ea n\u00e3o quis perceber os sinais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><br \/>\nFilho precisa sair da casa paterna para realizar seus pr\u00f3prios projetos. Mas isso vai se fazendo lentamente. Ele vai ganhando coragem aos poucos, testando suas for\u00e7as, tateando o ch\u00e3o. Os amigos s\u00e3o elementos fundamentais nesse ritual. \u00c9 com eles e para eles que o \u201cnosso\u201d filho arrepia as penas para se mostrar adulto, ou quase. Inescap\u00e1vel e sofrida (para voc\u00ea) \u00e9 aquela cena em que ele expulsa o pai\/a m\u00e3e e sua carona habitual enquanto diz baixinho: \u201cMe espere depois da esquina\u201d (Todos os nossos filhos fizeram isso.). Depois, a carona se torna realmente castradora, a menos que voc\u00ea carregue todo o bairro em seu carro e aprenda a reconhecer como isso \u00e9 divertido. Ent\u00e3o, todos eles resolvem voltar para casa de \u00f4nibus e levam junto sua divers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A vida em fam\u00edlia j\u00e1 fora abandonada h\u00e1 tempos, justo no momento em que ele pendurou na porta do quarto um cartaz dizendo \u201cBata antes de entrar\u201d, disfar\u00e7ado, \u00e0s vezes, de \u201cG\u00eanio estudando\u201d ou algo semelhante. A for\u00e7a desse cartaz, a par de manter a privacidade a que agora tem direito, \u00e9 comunicar: \u201cEstou indo. N\u00e3o quero nenhum familiar aqui\u201d. Interessante ver como os familiares passaram a incomod\u00e1-lo: a irm\u00e3zinha, at\u00e9 poucos dias, sua alegria e seu mascote, tornou-se intoler\u00e1vel. Os pais? Invasores. Bisbilhoteiros. \u201cN\u00e3o me compreendem.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas voc\u00ea, anestesiada em seu papel de m\u00e3e, tem estado distra\u00edda. Quando na rua, voc\u00ea sempre segurou sua m\u00e3o com firmeza enquanto mostrava a ele os sinais do tr\u00e2nsito, as faixas de pedestre, as diferentes rea\u00e7\u00f5es dos passantes, a necessidade de observar o espa\u00e7o. E, num certo momento, ele largou sua m\u00e3o e saiu correndo. Voc\u00ea atr\u00e1s, suando, j\u00e1 imaginando encontr\u00e1-lo atropelado, e l\u00e1 estava ele esperando o sinal abrir, mostrando que aprendera a li\u00e7\u00e3o. Sim, ele j\u00e1 estava saindo, desprendendo-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Houve aquele momento \u2013 talvez voc\u00ea tenha esquecido \u2013 em que ele acordou e escolheu a roupa com que queria sair e insistiu em se vestir-sozinho. E l\u00e1 foram voc\u00eas para a festinha do colega: camiseta do avesso, cal\u00e7a comprida, gorro, num calor de 42 graus. Ele j\u00e1 n\u00e3o dependia das escolhas que voc\u00ea fizesse, vinha se tornando independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Mam\u00e3e, pode sair. Eu vou tomar banho sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Mas eu quero lavar tua cabe\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Eu sei lavar. Pode deixar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Meia hora depois, ele apareceu, arrastando a toalha presa na cintura, os cabelos empapados de xampu, nos l\u00e1bios o mais lido sorriso de vit\u00f3ria. Voc\u00ea riu, alegre, e n\u00e3o percebeu que ele estava escapando.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Houve aquele dia em que ele se apoderou do garfo e da faca, empurrou sua m\u00e3o e come\u00e7ou a comer. Nunca mais aceitou ajuda, para alegria do c\u00e3ozinho que sempre o acompanhava. E voc\u00ea ficou t\u00e3o orgulhosa que nem notou o gesto de independ\u00eancia que ali se manifestava.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Teve tamb\u00e9m aquela fase da birra, da teimosia. Dif\u00edcil para voc\u00ea; essencial para ele. Por qu\u00ea? Ora, eram seus primeiros movimentos de liberdade e afirma\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ah! N\u00e3o se esque\u00e7a daquele instante inicial, enquanto ele terminava de nascer e lhe cortavam o cord\u00e3o umbilical. Acho que ele chorou muito, n\u00e3o s\u00f3 pelo processo do nascimento, mas principalmente para deixar claro que ali se libertava um sujeito que sabia muito bem o que queria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mam\u00e3e, ele nunca pertenceu a voc\u00ea! Voc\u00ea apenas o ajudou a crescer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA boa m\u00e3e \u00e9 aquela que vai se tornando desnecess\u00e1ria com o passar do tempo.\u201d &nbsp; &#8211; Mam\u00e3e, vou morar com a Angelina. J\u00e1 alugamos uma casa e estamos nos organizando. A not\u00edcia surpreende. 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