{"id":112,"date":"2019-01-29T10:45:14","date_gmt":"2019-01-29T12:45:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/?p=112"},"modified":"2019-02-22T10:59:41","modified_gmt":"2019-02-22T13:59:41","slug":"14-o-rato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogpalavra.com.br\/cronicas\/14-o-rato\/","title":{"rendered":"14. O rato"},"content":{"rendered":"<p>Primeiro ele deixou sinais de sua passagem: pequeninas fezes e manchinhas de urina, em meio aos frascos, sobre a c\u00f4moda.<\/p>\n<p>Com o passar das semanas, a visita se tornou di\u00e1ria, e os sinais foram aparecendo em outros pontos do quarto.<\/p>\n<p>Alguma coisa precisava ser feita. Como sou vegetariana e vivo a defender os mam\u00edferos \u2013 nossos irm\u00e3os, tamb\u00e9m eles amamentam suas crias \u2013, me vi frente a um dilema: \u201cComo tirar o rato de dentro de casa sem fazer-lhe mal?\u201d<\/p>\n<p>Abri a casa toda. Deixei escancaradas as janelas do quarto at\u00e9 a noite. Coloquei pedacinhos de p\u00e3o do peitoril da janela mais pr\u00f3xima ao balc\u00e3o at\u00e9 o ch\u00e3o da parede externa. Na manh\u00e3 seguinte, l\u00e1 estavam novamente as provas da invas\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Meu visitante foi ficando mais \u00edntimo. J\u00e1 passeava pela casa e se deixava ver \u2013 um ratinho min\u00fasculo, simp\u00e1tico e ligeiro. Assim ficou mais dif\u00edcil o combate. Eu j\u00e1 estava quase a consider\u00e1-lo membro da fam\u00edlia, bicho de estima\u00e7\u00e3o, como meu cachorro e meus gatos.<\/p>\n<p>Precisei recuar ao ver os cenhos carregados dos demais integrantes da fam\u00edlia. Cheia de remorsos, fui at\u00e9 a agropecu\u00e1ria \u00e0 procura de orienta\u00e7\u00f5es. Sa\u00ed de l\u00e1 com um pozinho alaranjado: \u201cO bicho come e morre em poucas horas\u201d. \u201cC\u00e9us! Vou matar um mam\u00edfero! Pior ainda, um mam\u00edfero que mora na minha casa, que j\u00e1 me conhece e parece confiar em mim!\u201d<\/p>\n<p>Procurei me consolar pensando: \u201cA vida n\u00e3o \u00e9 perfeita. Nem sempre podemos agir da forma mais justa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 noite, misturei o p\u00f3 com pedacinhos de p\u00e3o e os deixei no caminho j\u00e1 marcado pelos excrementos do meu h\u00f3spede. Passaram-se os dias. As migalhas permaneciam no mesmo lugar em que eu as deixava, e o ratinho, correndo pela casa.<\/p>\n<p>Entre a alegria e o espanto, j\u00e1 estava eu a aceitar o inevit\u00e1vel \u2013 \u201co rato n\u00e3o vai morrer e vai morar conosco daqui em diante\u201d\u2013, quando uma amiga me presenteou com um veneno infal\u00edvel que usara em sua casa.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 experi\u00eancia anterior, n\u00e3o acreditei que o tal veneno produzisse qualquer resultado. Repeti o ritual anterior \u2013 migalhas com pozinho \u2013 e esperei.<\/p>\n<p>Passados alguns dias, o rato desapareceu. Uma busca em toda a casa resultou in\u00fatil: nem sinal do bichinho. Como eu mantivera a casa e as janelas abertas o quanto poss\u00edvel durante todo esse tempo, consolei-me um tanto aliviada: \u201cEle fugiu. Foi embora\u201d.<\/p>\n<p>Passaram-se os meses. Esqueci-me do rato visitante. Chegou o per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal e o Ano Novo. Casa limpa, jardim aparado, flores renovadas, hora de colocar os enfeites, preparar o pres\u00e9pio, sentar o Papai-Noel no cadeir\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo providenciado, fui buscar o Bom Velhinho l\u00e1 onde ele espera o ano inteiro para alegrar nossas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Entre o susto e a tristeza, encontrei o meu ratinho morto, seco entre as barbas do Papai-Noel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro ele deixou sinais de sua passagem: pequeninas fezes e manchinhas de urina, em meio aos frascos, sobre a c\u00f4moda. Com o passar das semanas, a visita se tornou di\u00e1ria, e os sinais foram aparecendo em outros pontos do quarto. Alguma coisa precisava ser feita. 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