Tenho constatado com espanto o quanto nossos mundos são diferentes.

Meu arroz queima; esqueço a chaleira no fogão. Por mais que eu me esforce, o cheiro de bifes e de peixes impregna por dias minha cozinha. O bolo cria pé. Não sei se quero experimentar uma nova receita.

As trovoadas apagam as luzes do meu bairro; a enxurrada entra no meu quintal. Pela manhã, preciso arrumar camas, servir lanches, deixar os pequenos na escola.

O pneu fura em momentos de urgência. Meu carro fica preso no trânsito. Os horários ficam atrapalhados; suo e fico cansada.

Minhas crianças têm brotoejas provocadas pelo calor, insônia, falta de apetite. Não sabem a dancinha da garrafa. Também não gravam mensagens espontâneas em defesa do planeta.

Os produtos mágicos recomendados não curam meus males – garanto a vocês que babosa não cura câncer.

Quando viajo, sofro com o frio (ou calor) desconhecido, com a diferença de fusos, o atraso de voos, as hordas de turistas. Não fico ansiosa por renunciar a minha cidadania e ir morar em cada nova cidade que atravesso.

Mais grave que tudo, não consigo tomar partido nas situações apontadas em manchetes. Vejo vocês com suas certezas, defendendo pontos de vista, condenando este, enaltecendo aquele. Todos tão seguros, o mundo dividido entre o certo e o errado, o bem e o mal, o correto e o incorreto. E eu aqui, olhando diferentes perspectivas, acovardada por possíveis erros de julgamento. Vocês todos têm tanta segurança, e eu só tenho dúvidas – sou um ponto de interrogação dentro da vida.

Por tudo isso, queridos, é que aqui os deixo com sua segurança e sua alegria sem fim. Vou para o lado de fora da tela, lá onde me esperam os cheiros e as dores que a vida oferece a cada dia.