Gêneros parte 2 – Narrativa / Narração

Gêneros parte 2 – Narrativa / Narração

Gêneros

NARRAÇÃO

A narração caracteriza-se por apresentar fatos (ação) que se desenrolam em determinado tempo e lugar, com a atuação de uma ou mais personagens.

A narração ou narrativa está presente no decorrer de toda a vida do indivíduo, seja no gosto de ouvir histórias, seja no prazer de contá-las.

Assim como comparamos a descrição a uma fotografia ou a uma pintura, podemos comparar a narrativa a um filme: enquanto o filme se vale de imagens e ambientações onde as personagens vivem suas histórias, a narração ou narrativa apresenta o desenrolar dos fatos, valendo-se apenas da combinação das palavras para criar cenários e apontar o tempo em que as ações se passam.

Narrativas acompanham a aventura humana desde as vigílias ao redor das fogueiras até as rodas de conversa dos grupos de amigos na atualidade. É a narrativa trazida pelos pais no momento do aconchego que povoa o imaginário das crianças (Era uma vez…). É ela que eterniza a História e dá permanência ao conhecimento acumulado pela humanidade.

 

A apresentação de uma narrativa se faz por intermédio de um narrador. Este pode ou não ser personagem dos acontecimentos, ou seja, pode ser um simples observador, uma voz que narra, ou um alguém que participa da trama (da história, dos fatos).

A narração em primeira pessoa (eu) apresenta um viés mais subjetivo, mais emotivo, menos imparcial. Em terceira pessoa, o narrador eventualmente participa da ação; em outras, é o olhar que observa e a voz que aponta os fatos a certa distância emocional, de forma mais objetiva.

 

Descubra a beleza das narrações.

Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar mentalmente uma preferência e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel, perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o determinou a isto foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia, o menino foi levado à farmácia, o cocheiro ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro, cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro. O carneiro não foi mais feliz que a cobra. […]

Jogo, Machado de Assis, em Outros Contos

 

O texto que você acabou de ler é parte de um conto de Machado de Assis, considerado o maior narrador da literatura brasileira. Observe as personagens que compõem a história e a importância que assume sua localização no espaço e no tempo da narrativa.

Aqui encontramos: a voz que conta (o narrador), simples observador, não é personagem da história. Por isso, a narração se dá em terceira pessoa.

A narração tem Camilo como personagem central. Outras personagens (secundárias) completam a trama (o menino, a polícia, o cocheiro). E a história se tece, de forma objetiva, um tanto irônica, por conta do narrador. Tempo e espaço em que a situação ocorre completam os elementos necessários à composição.

 

OBSERVAÇÃO: Você deve ter notado que usamos a palavra personagem no feminino. É um substantivo sobrecomum: tem só uma forma para os dois gêneros (sim, é isso mesmo: a personagem, assim como a criança). A forma o personagem, no entanto, vem sendo adotada com bastante liberdade.

 

As narrativas de cunho psicológico surpreendem ao registrar atmosferas (tempo e espaço) muito particulares – tempo interior, espaços de sonho, desvarios, devaneios, flashbacks.

Abaixo você pode ler um conto psicológico. Nele os aspectos sensíveis, a tensão, são destacados, deixando em segundo plano, por menos relevante, a cadeia de acontecimentos.

A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem-vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapejado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata. Tendo Zilda – a filha com quem a aniversariante morava – disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. “Vim para não deixar de vir”, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês. Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante —, e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta. E à cabeceira da mesa grande a aniversariante, que fazia hoje oitenta e nove anos. Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sugados pelo teto, em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros, “Feliz Aniversário!”. No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para que não desarrumassem a mesa. E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o voo da mosca em torno do bolo.

Feliz Aniversário, de Clarice Lispector, em Laços de família

 

OBSERVAÇÃO 2: A narrativa faz parte de nosso cotidiano. Ela não aparece apenas em textos literários ou jornalísticos, mas também em nosso trabalho técnico, sob a forma de despachos, pareceres, relatórios, atas, prestações de contas e outros documentos redigidos no dia a dia das instituições.

 

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